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domingo, 11 de dezembro de 2011

A História do Nordeste

É comum, ao estudarmos História Geral, nos depararmos com a divisão didática da mesma em: Antiguidade, Idade Média, Idade Moderna e Idade Contemporânea. Bem, ao lermos a história da região nordestina brasileira, podemos também classificar a mesma de acordo com algumas características básicas: O Velho Nordeste: O início se dá com a Independência do Brasil em 1822. Algumas das características principais são o Cangaço e os Movimentos Messiânicos (O Reino da Pedra Bonita-Pe, Belo Monte-Ba (Canudos), Juazeiro do Norte-Ce, etc.) onde houve intervenção armada por parte do poder público, podemos citar ainda o estilo de vida camponês com o pouco contato da população com os grandes centros urbanos da época. Sabemos que é arbitrário usar datas para dividirmos os períodos da história, mas podemos perceber que esse período se extendeu até 1959, quando, nos anos 60, a região começou a aderir à cultura citadina que se tornava acelerada no Centro-Sul do país. O Médio Nordeste: Esse período da história nordestina se inicia em 1960, as principais características desse período são a crescente migração da população para os centros urbanos e o êxodo do sertanejo para São Paulo. O fim desse período pode ser datado do ano 2000, quando a energia elétrica começou a chegar no campo e o povo passou a ter acesso às tecnologias típicas dos centros urbanos. O Nordeste Contemporâneo: Inicia-se por volta do começo da década de 2000, com o acesso crescente da população camponesa aos meios de comunicação como a TV, a Internet e o abandono, em parte, de tradições mais antigas, como por exemplo, a música tradicional nordestina, as festas populares religiosas, alguns alimentos típicos, etc.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Fichamento do livro "Bom Conselho dos Montes do Boqueirão (Cícero Dantas)"

A autora e a obra

Telma Antoniêta Sousa Cerqueira, 27 anos de idade, estudante de Ciências Contábeis na Universidade Estadual de Feira de Santana na época em que escreveu a obra.
Natural de Pau Brasil-Ba, Telma escreveu o livro “Bom Conselho dos Montes do Boqueirão” o qual foi lançado no ano de 1989, obra esta que, segundo a autora, houve uma pesquisa minuciosa que abrangeu um período de cinco anos nos quais a autora entrevistou os mais antigos da cidade de seus avós, a cidade de Cícero Dantas-Ba.

CERQUEIRA, Telma Antonieta Sousa. Bom conselho dos montes do Boqueirão: Cícero Dantas. Salvador, Ba: Arco-Íris, 1989.

Literatura: Histórica Jornalística.

“Em 1815 as terras de Bom Conselho ainda se encontravam na relação de bens da casa da torre, no tempo de Antônio Joaquim Pires Carvalho e Albuquerque Cavalcanti de Á’vila Pereira.” (p. 19)

“Existia uma estrada de São Francisco à Salvador por onde era conduzido o gado da família D’Ávila para a comercialização. Tudo era mato e ao longo da estrada eram encontradas algumas covas de defunto.
Nessa região existia uma perigosa quadrilha de assaltantes e criminosos que roubava e assassinava: boiadeiros, tropeiros, viajantes e mascates, que pousavam nestas paragens e enterravam-os em um cemitério denominado ‘Cacunéa’.” (p. 20)

“’Em vista da informação, ordenou que fizessem um abaixo-assinado sobre a divisão e número de pessoas e pedisse a ser freguesia. E se fez por vigário encomendado o reverendo Padre Manuel de Barros que foi o primeiro padre da Igreja, distante sessenta braças tem um monte bastante alto e em cima dele eregi um santo Calvário entre uma pequena capela onde além das três cruzes colocou a Imagem de Nossa Senhora da soledade, São João e Bom Jesus. No túmulo com um bonito altar em que o excelentíssimo Dom Francisco S. Damazo por uma pastoral mandou que benzesse e se rezassem missa. Declarou altar privilégio e concedeu muitas outras indulgências. Por justa razão é muito visitado por romeiros que recebeu do Santo Calvário graças e favores.’” (p. 22)

“Sob a proteção de Nossa Senhora do Bom Conselho foi criada a freguesia por força do alvará de 21 de dezembro de 1871. Depois pela Lei Provincial de 1518 de 09 de julho de 1875 o povoado foi elevado à categoria de Vila com a denominação de Bom Conselho, mas somente a sua instalação ocorreu em 28 de março de 1876.” (p. 23)

“A velha matriz de Bom Conselho foi demolida em 1893 e iniciada a atual em 1894. Antônio Conselheiro deu sua ajuda com trabalhos em 1895.” (p. 23)

“Os Montes do Boqueirão, na realidade, são duas serras que se encontram com a distância de 380 a 400 metros uma da outra e com a altura de 130 metros, cada uma, localizando-se a noroeste da cidade a 06 km da Igreja matriz de Bom Conselho.” (p. 29)

“Dizia a lenda: ‘Nossa Senhora do Bom Conselho, a Santa da Capela que era feita de massa, fugia para a Igreja que foi construída por Frei Apolônio de Todi. Toda vez que a Santa fugia, o povo reunia-se em procissão e vinha buscá-la, levando-a de volta à capela com fogos e muita alegria. As romarias eram grandes, existia fé em cada um e os milagres se sucediam a cada dia. Segundo a lenda, a Santa continuava a fugir.’” (p. 29)

“Os antigos costumam contar que, no mês de agosto, em noites de luar, aparecia, nas Serras do Boqueirão, um bode preto com faixas de ouro, pulando de uma serra para a outra. E assim, correu a notícia, de boca em boca, causando curiosidade a todos.” (p. 32)

“Mais ou menos nas décadas de 1920, apareceu em Bom Conselho misteriosamente, um estranho animal aparentando jumento, com berros que todos temiam e chegavam a assustar até a própria natureza, pois no momento que ele berrava, a terra tremia no local. Foi, porém, este animal denominado o ‘Berrador’.” (p. 32)

“O ‘O’ é um poço muito antigo que cavaram com a profundidade de 500 metros, localizando-se na antiga Fazenda Caimbé, próximo a pracinha Municipal. É um local muito escondido que hoje para se chegar até lá é preciso muita curiosidade, mas na época que não existia água encanada, ou até mesmo tanque, o ‘O’ era de grande importância para a população tirar água para beber, sendo distribuída por meio de potes, latas, barris, etc.
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A água do ‘O’ é inesquecível. Quem bebe desta água, não sairá jamais desta terra e se partir com certeza retornará, por não suportar a saudade.” (p. 33)


“Que ironia do destino! Neste dia, o escravo que matou Sérgio foi preso, seguindo para uma penitenciária na Bahia. Este homem poderia ser livre, no entanto estava sendo condenado. Quanto aos outros escravos, aqueles que não quiseram ficar na fazenda, seguiram seu destino.” (p. 40)

“’Nasceu Cícero Dantas Martins no dia 28 de julho de 1838 na Fazenda Cariatá, município de Jeremoabo. Filho do Coronel João Dantas dos Reis e Mariana da Silveira Dantas...’” (p. 80)

“Casado com Mariana da Costa Pinto que lhe sobreviveu 12 anos, teve dois filhos: João da Costa Pinto Dantas e Antônio da Costa Pinto Dantas, ambos Bacharéis, fazendeiros e políticos de renome.” (p. 82)

“O Barão falava do seu amor às terras de Bom Conselho e costumava dizer:’quando eu morrer, quero que enterrem nesta terra pelo menos o meu coração’.E aconteceu que em 1903 em uma das temporadas que o Barão foi passar em Bom Conselho, lá sentiu-se mau, vindo a falecer com 65 anos de idade, sendo sepultado na Igreja Nossa Senhora do Bom Conselho desta cidade.” (p. 82)

“’Padre Vicente José Martins, nasceu no dia 22 de janeiro de 1856 em Tanquinho-BA. Fez todos os seus estudos no velho Seminário de Santa Tereza...Tomou posse da freguesia de Bom Conselho dos Montes do Boqueirão aos 14 de junho de 1883, como Coadjutor do saudoso Cônego Caetano Dias da Silva, sucedendo-se no paroquiato no ato imediato e permanecendo nas mesmas funções durante meio século, ou seja até a data do seu falecimento 04 de junho de 1933.’” (p. 88)

“Em 1945, chegou à Cícero Dantas, Monsenhor Renato de Andrade Galvão. Estava com 27 anos. Era magro, simpático e muito trabalhador. A sua inteligência e capacidade são incalculáveis.” (p. 95)

“No ano de 1893, chegou a Bom Conselho o senhor Antônio Mendes Maciel, vestido de frade da Ordem de São Francisco, sendo conhecido mais tarde como Antônio Conselheiro.
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Em Bom Conselho, fez transportar a madeira da Fazenda Bendó de dona Humbelina Gama para a Igreja, como também fez a escadaria próximo ao altar superdânio, da mesma Igreja.” (p. 123)

“Em 26 de junho de 1926, os Revoltosos e o líder Carlos Prestes passaram por Cícero Dantas e sob um clima de expectativa a população fugiu da cidade, ficando o padre Vicente e algumas famílias.” (p. 126)

“Quando falamos em Lampião é como se estivéssemos despertando de um terrível pesadelo, do qual só restam lembranças para a geração que sofreu e presenciou os ataques do cangaço.
Passando em Tucano-BA, Lampião obrigou o padre daquela paróquia a dar o seu carro com o motorista, para conduzi-lo com seu grupo até Bom Conselho, chegando no dia 17 de dezembro de 1928 numa manhã ensolarada de segunda-feira. Traziam como refém, um soldado de Ribeira do Pombal, já rouco de tanto gritar:
- Viva Lampião!
- Viva o Capitão Virgulino!” (p. 128)

“No dia 18 de fevereiro de 1929, correu a notícia em Bom Conselho, que Lampião retornaria.” (p. 131)

“Em 1933, Lampião voltou pela terceira vez, fortemente armado com um grupo de 38 homens. Eles vinham de Massacará e chegando nos Buracos, atual Fortaleza de São João, queimaram uma casa.” (p. 134)

“Deixando de fazer suspense, estou falando de Reginaldo de Sales Gonçalves. Nasceu, no dia 25 de outubro de 1929 em Cícero Dantas. Reginaldo também saiu cedo da cidade abraçando-se no mundo artístico, tornado-se ator e modelo publicitário no Rio de Janeiro.
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As principais novelas da Globo que Reginaldo participou foram:
Fogo Sobre Terra, Escalada, Gabriela, A Moreninha, Bravo, Saramandaia, Vejo a Lua no Céu, Escrava Isaura, Sombra dos Laranjais, Loco Motivas, Dona Xepa etc.
Reginaldo teve participação também nos seguintes filmes:
Se Segura Malandro, Dona Flor e Seus Dois Maridos, Ninguém Segura esta Mulher, O Importante é Viver, Um Sutiem do Papai, Os Amores da Pantera, O Padre que Não Queria Pecar, As Desquitadas em Lua de Mel.” (p. 169)

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Minha Monografia (Edson dos Santos)

UNIVERSIDADE ESTADUAL DE FEIRA DE SANTANA
DEPARTAMENTO DE LETRAS E ARTES
COLEGIADO DE LETRAS E ARTES
CURSO DE LICENCIATURA EM LETRAS COM LÍNGUA INGLESA











JOSÉ EDSON DOS SANTOS SILVA








OS SERTÕES: DE BOM CONSELHO A CÍCERO DANTAS














Feira de Santana – BA
2011


JOSÉ EDSON DOS SANTOS SILVA










OS SERTÕES: DE BOM CONSELHO A CÍCERO DANTAS








Monografia apresentada ao Curso de Licenciatura em Letras com Língua Inglesa da Universidade Estadual de Feira de Santana como requisito parcial para obtenção do grau de Licenciado em Letras com Língua Inglesa.

Orientadora: Profª. Drª. Hely D. C. da Fonseca.





Feira de Santana – BA
2011






























À minha avó Sufia Lourdes de Santana (In Memoriam), a beata que me fez ter orgulho de ser nordestino e sertanejo.





AGRADECIMENTOS






























À minha esposa Marlene e ao meu filho Yosep pelo amor e apoio.
Aos meus pais Neide e Osmá por minha vida.
Aos meus familiares sempre prontos a me ajudar.
Às bandas, artistas e escritores que formaram o meu mundo imaginário da arte.
À minha orientadora Profª. Drª. Hely D. C. da Fonseca pela dedicação.
Ao meu co-orientador Prof. Idmar B. Moreira, pela cooperação.































“Se o mundo é mesmo parecido com o que vejo, prefiro acreditar num mundo do meu jeito.”
Extraído da música “Eu era um Lobisomem Juvenil”, álbum “As Quatro Estações” (1989) da banda Legião Urbana.







RESUMO


Alguns fatos que ocorreram na cidade de Bom Conselho/Cícero Dantas, nos fins do século XIX, tiveram certo peso no desenrolar dos combates envolvendo o exército brasileiro de um lado e os habitantes de Canudos do outro. Este trabalho tenta refletir e agregar tais acontecimentos, visto que os mesmos já foram relatados por vários escritores, mas até hoje permanecem dispersos. Há então, a necessidade de uma obra onde os fatos ocorridos em Bom Conselho/Cícero Dantas estejam agregados. O presente trabalho cumpre essa tarefa ao reunir os relatos de diversas obras onde a cidade de Cícero Dantas e Canudos estão diretamente ligadas. A coleta dos dados foi realizada por meio de pesquisas em obras escritas sobre o tema “A Guerra de Canudos”, após a análise e reflexão acerca dos dados encontrados, tornou-se possível a conclusão de que a cidade de Cícero Dantas teve um papel crucial nas origens da guerra.

Palavras-chave: Cícero Dantas. Guerra de Canudos. Fatos. Agregar.





















ABSTRACT


Some facts that occurred in the city of Bom Conselho/Cícero Dantas, at the end of the 19th century, influenced the conflicts that took place between the Brazilian Army and Canudos’ inhabitants. This work analyses the events and gather them, since they have been related by many writers, but so far, they remain spread out. So, there is the necessity of a work where all of the facts that occurred in Bom Conselho/Cícero Dantas are put together. This work accomplishes the quoted task gathering the facts from various works where the city of Cícero Dantas and Canudos are linked. The data collection was accomplished by the means of research on written works about “Canudos War”, after the analysis of the found data, it became possible the conclusion that the city of Bom Conselho/Cícero Dantas had a crucial role in causing the war.

Keywords: Cícero Dantas. Canudos War. Facts. Gather.



































Lista de Ilustrações

Figura- Mapa do Sertão de Canudos em 1897 15















































SUMÁRIO

Introdução
11
1- OBJETIVOS
11
2- JUSTIFICATIVA
12
3- FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
12
4- METODOLOGIA
13
CAPÍTULO 1 – DE BOM CONSELHO À CIDADE DE CÍCERO DANTAS
14
1.1 - A CRIAÇÃO DA FREGUESIA DE NOSSA SENHORA DO BOM CONSELHO
14
1.2- CÍCERO DANTAS 17
CAPÍTULO 2 – CÍCERO DANTAS E CANUDOS
17
2.1- ANTÔNIO CONSELHEIRO
17
2.2- O CONSELHEIRO SE ESTABELECE EM CANUDOS
19
2.3- A QUEBRA DAS TÁBUAS DE IMPOSTOS
20
2.4- O ÊXODO DA POPULAÇÃO PARA CANUDOS
21
2.5- A VISITA FINAL DO CONSELHEIRO À BOM CONSELHO
23
2.6- O CONFLITO
25
2.6.1- O Estopim
26
2.6.2- Uma História dentro da História
27
2.7- A QUARTA EXPEDIÇÃO
28
CAPÍTULO 3 – OS JAGUNÇOS E BOM CONSELHO/CÍCERO DANTAS
28
3.1- CONTINGENTES
28
3.2- JOÃO ABADE
29
3.3- NORBERTO DAS BAIXAS
31
3.4- BERNABÉ JOSÈ DE CARVALHO
32
3.5- O VELHO MARIANO
34
Considerações Finais
35
Referências Bibliográficas
36

Introdução

O intuito do presente trabalho é de legar informações preciosas para futuras pesquisas mais aprofundadas sobre o tema “A Guerra de Canudos” que tem importância não só na literatura, mas também na história do Brasil. O texto aqui desenvolvido trará pontos importantes para o meio científico, já que até os dias atuais tão pouco se fez para, de modo justo, trazer à luz a influência dos fatos que ocorreram na cidade de Bom Conselho/Cícero Dantas, os quais elevaram a cidade a uma posição privilegiada, porém pouco conhecida, da importância literária e histórica da mesma no meio acadêmico brasileiro e mundial. Sabe-se que há uma nítida necessidade de conhecermos os relatos e seu grau de importância.
O presente trabalho agrega o que se tem escrito sobre Bom Conselho/Cícero Dantas e sua influência na Guerra de Canudos, em princípio, há relatos da região no período em que o lugar ainda era uma pequena freguesia dirigida pelos missionários católicos que frequentavam a região com a tarefa de catequizar os índios que habitavam aquelas paragens.
Com a elevação da Freguesia de Nossa Senhora do Bom Conselho para o status de Vila, o lugar chamou a atenção da população da região e famílias inteiras começaram a migrar para a povoação que começou a crescer.
Políticos da região tiveram certa influência nas decisões que afetaram a localidade, nesse contexto, Antônio Conselheiro começou a fazer visitas constantes à povoação, ora trazendo fé às pessoas que moravam nas redondezas e que raramente viam a presença dos missionários católicos, ora construindo igrejas, açudes e demais benefícios para o povo da região.
Alguns fatos ocorridos na localidade tiveram uma enorme influência na Guerra de Canudos. Com o estabelecimento do Conselheiro na fazenda abandonada à margem do rio Vaza-Barris, muitas pessoas que moravam nos domínios da Comarca de Bom Conselho foram habitar o povoado do beato cearense, e, tanto na época do conflito como após o término do mesmo e da destruição da povoação dos jagunços, quando houve a reconstrução do lugar, personagens da epopéia sertaneja tiveram estreitos laços com Bom Conselho/Cícero Dantas.

1- OBJETIVOS

Urge conhecermos os relatos e o grau de importância e influência dos mesmos na literatura e história nacionais nas quais a cidade de Cícero Dantas tem papel crucial.
As páginas do livro Os Sertões de Euclides da Cunha onde Bom Conselho/Cícero Dantas é citada carece de uma análise mais profunda com o apoio de outros escritos produzidos por autores que tanto foram contemporâneos do episódio sertanejo como também posteriores que pesquisaram a fundo essa belíssima história. Assim, tem-se por finalidade um esclarecimento da importância literária e histórica que a cidade de Bom Conselho/Cícero Dantas tem no cenário nacional.

2- JUSTIFICATIVA

O afeto e o desejo de colocar a cidade de Cícero Dantas em um patamar de certa notoriedade fizeram com que o presente trabalho fosse realizado.
Há muito tempo, os versos de uma música baiana despertaram em mim a curiosidade acerca dos acontecimentos que se desenrolaram em Canudos. Os versos da seguinte música “Revolta” do Olodum fizeram brotar em mim o desejo de conhecer quem foi Antônio Conselheiro e o que foi Canudos:
“retirante ruralista/
lavrador/
nordestino Lampião/
Salvador/
pátria sertaneja/
independente/
Antônio Conselheiro/
em Canudos presidente...”
Com o passar dos anos, o tema foi ficando mais evidente e menos inalcançável devido aos livros que foram chegando à minha escola e pelas indagações que eu fazia às pessoas mais velhas da minha cidade natal.

3- FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

A escolha do tema deve-se ao domínio do mesmo pelo autor desse trabalho. Com uma constante consulta numa vasta literatura disponível na biblioteca da Universidade Estadual de Feira de Santana, a seleção e busca dos trechos de outras obras onde as citações do livro “Os Sertões” podem ser complementadas perfazem os fundamentos desse presente trabalho: “Optar por um assunto compatível com as qualificações pessoais, em termos de background da formação universitária e pós-graduada” (LAKATOS, 1991: 44).
A busca das passagens de outras obras onde complementam uma obra tomada como base acontece mediante a leitura e pesquisa minuciosas da bibliografia relacionada ao tema que se quer desenvolver:
“A pesquisa bibliográfica ou de fontes secundárias é a que especificamente interessa a este trabalho. Trata-se de levantamento de toda a bibliografia já publicada, em forma de livros, revistas, publicações avulsas e imprensa escrita. Sua finalidade é colocar o pesquisador em contato direto com tudo aquilo que foi escrito sobre determinado assunto, com o objetivo de permitir ao cientista ‘o reforço paralelo na análise de suas pesquisas ou manipulação de suas informações’ (Trujillo, 1974: 230). A bibliografia pertinente ‘oferece meios para definir, resolver, não somente problemas já conhecidos, como também explorar novas áreas, onde os problemas ainda não se cristalizaram suficientemente’ (Manzo, 1971: 32)” (LAKATOS, 1991: 44).

Seguindo esse fundamento, o presente trabalho foi elaborado. Apesar do tema “A Guerra de Canudos” ainda ser muito mais vasto e abrangente, o resultado aqui foi de explicitar a relação do início do conflito sertanejo e a cidade de Bom Conselho/Cícero Dantas.

4- METODOLOGIA

As páginas do livro Os Sertões de Euclides da Cunha onde Cícero Dantas é citada carecem de uma análise mais profunda com o apoio de outros escritos produzidos por autores que, tanto foram contemporâneos do episódio sertanejo como também posteriores que pesquisaram a fundo essa belíssima história. Com isso tem-se por finalidade um esclarecimento da importância literária e histórica que a cidade de Bom Conselho/Cícero Dantas teve no cenário nacional.
A investigação para a produção deste trabalho foi realizada através de uma minuciosa pesquisa bibliográfica, mediante a localização das citações em que aparece a cidade de Bom Conselho/Cícero Dantas no livro Os Sertões. Logo após o primeiro passo, foi analisado todo um material de apoio que dialogou e trouxe informações complementares às citações encontradas no livro Os Sertões.
Essas informações adicionais são de extrema importância, já que as citações no livro de Euclides da Cunha são um tanto breves por terem sido relatadas por um escritor que pouco permaneceu no teatro de operações com o exército brasileiro. Os outros materiais foram escritos por contemporâneos dos eventos citados e também por pesquisadores nacionalmente reconhecidos e respeitados quanto ao tema “A Guerra de Canudos”. Com a localização das citações em todas as obras, houve a produção de um texto onde elas estão todas agregadas de modo que se complementam e formam um trabalho mais coeso.

CAPÍTULO 1 – DE BOM CONSELHO À CIDADE DE CÍCERO DANTAS

Para que o leitor se sinta bem situado ao pesquisar sobre determinadas localidades ou cidades envolvidas em fatos históricos e literários de grande importância, é necessário que haja uma identificação precisa acerca das mesmas como também do processo de mudança das denominações pelas quais os lugares passaram, assim, o leitor poderá ter o conhecimento da localização exata das povoações envolvidas no enredo lido.

1.1 A CRIAÇÃO DA FREGUESIA DE NOSSA SENHORA DO BOM CONSELHO
Durante o período da colonização do Brasil, na Europa, por volta do ano de 1540, o movimento da Reforma se alastrava desviando da Igreja Católica uma multidão de pessoas. Roma tinha que agir prontamente para que o crescimento das igrejas protestantes fosse de certo modo estancado.
No Brasil, com os contingentes crescentes de pessoas vindas de Portugal para a solidificação do governo português em terras da América, a vinda de missionários portugueses católicos cada vez mais se tornava uma realidade, havendo assim, a necessidade de evangelização dos povos pagãos da América Portuguesa.
Vários clérigos da Igreja Católica no Brasil se aventuraram nessa empreitada, ao adentrarem nossos sertões, eles se deparavam com ajuntamentos indígenas que vieram a se chamar “aldeias”. Com a catequização dos silvícolas, essas aldeias indígenas aos poucos foram tendo um contato mais estreito com os colonizadores, por fim muitos dos quais vieram a mudar-se e passaram a conviver com os índios em suas povoações.
Muitas das atuais cidades localizadas no nordeste do estado da Bahia tiveram suas origens desse modo. Jeremoabo, Ribeira do Pombal, Monte Santo, Cícero Dantas, entre outras, antes abrigavam ajuntamentos indígenas. O evangelizador de maior renome nessa região foi o Frei Apolônio de Todi, frade capuchinho de origem italiana que fundou o povoado de Monte Santo:
“É que transpondo o Itapicuru, pelo lado do sul, as mais avançadas turmas de povoadores estacaram em vilarejos minúsculos – Maçacará, Cumbe ou Bom Conselho – entre os quais o decaído Monte Santo tem visos de cidade: transmontada a Itiúba, a sudoeste, disseminaram-se pelos povoados que a abeiram acompanhando insignificantes cursos de água, ou pelas raras fazendas de gado, estremados todos por uma tapera obscura – Uauá; ao norte e a leste pararam às margens do São Francisco, entre Capim Grosso e Santo Antônio da Glória” (CUNHA, 2007:37).

Por volta do ano de 1790, a criação extensiva de gado era uma das principais atividades praticadas pelo povo que habitava a região, muitos dos donos de terra na província da Bahia tinham um papel semelhante ao de um senhor feudal da idade média, eles dominavam desde a política até determinados comportamentos dos cidadãos das vilas existentes no sertão daquela época.
Para que houvesse o escoamento da produção agrícola, do comércio de gado e do transporte de mercadorias dos tropeiros e mascates, uma estrada fora construída desde a margem direita do Rio São Francisco na altura da cachoeira de Paulo Afonso até a cidade de Salvador, capital da Província da Bahia. Essa estrada cortava a localidade que seria denominada Freguesia de Nossa Senhora do Bom Conselho dos Montes do Boqueirão (atual cidade de Cícero Dantas-Ba).
A estrada real, como é denominada no livro “Os Sertões”, era uma passagem perigosa devido a um certo número de assaltantes que atacavam os tropeiros e mascates que trilhavam por aquelas veredas. Esses criminosos enterravam suas vítimas num cemitério clandestino chamado de “Cacunéa”, o lugar onde esse cemitério se encontrava viria a ser a Freguesia de Nossa Senhora do Bom Conselho:
“Calcando-o, em demanda do Piauí, Pernambuco, Maranhão e Pará, os povoadores, consoante vários destinos, dividiam-se em Serrinha. E progredindo para Juazeiro, ou volvendo à direita, pela estrada real do Bom Conselho que desde o século XVII os levava a Santo Antônio da Glória e Pernambuco – uns e outros contorneavam sempre, evitando-a sempre, a paragem sinistra e desolada, subtraindo-se a uma travessia torturante” (CUNHA, 2007:40).

O povo daquela região fez um abaixo-assinado pedindo às autoridades eclesiásticas que no lugar fosse erigida uma igreja, Essa tarefa foi confiada ao Frei Apolônio de Todi, que encontrava-se na aldeia de Mirandela, por volta do ano de 1815, tendo vindo da Vila de Monte Santo onde ele se encontrava.


Mapa do Sertão de Canudos em 1897:


Ao fazer uma visita a uma velha de 103 anos de idade, o Frei pediu a alguns homens que avisassem ao povo da região que haveria missa no lugar, e que as pessoas viessem ajudá-lo a limpar o cemitério que havia certo tempo o mato tomava conta. Depois de alguns dias o Frei pediu que fossem construídas duas casas, uma para sua morada e outra como casa de oração, ele também pediu que também fossem angariados madeiras e pedras para a construção da igreja.
Após dois meses, depois do pedido do Frei para a construção das casas, todo o material necessário estava pronto para a empreitada, o Mestre Antônio Machado foi o responsável pela construção, enquanto isso, o Frei foi até Salvador encomendar a imagem de Nossa Senhora do Bom Conselho, pois era italiano e em sua terra natal, o povo era muito devoto daquela santa.
A maioria da população da região foi atraída pela construção da igreja, desse modo, muitos que moravam nas redondezas, cujas origens eram luso-holandesas, além de escravos afro-brasileiros e os indígenas que habitavam a região mudaram-se para a localidade.
A criação da Vila data aproximadamente da segunda metade do século XIX:
“Sob a proteção de Nossa Senhora do Bom Conselho foi criada a freguesia por força do alvará de 21 de dezembro de 1817. Depois pela lei provincial de 1518 de 09 de julho de 1875 o povoado foi elevado à categoria de Vila com a denominação de Bom Conselho, mas somente a sua instalação ocorreu em 28 de março de 1876” (CERQUEIRA, 1989:23).

1.2 CÍCERO DANTAS.
Bom Conselho conquistara um lugar especial no coração do maior latifundiário da América Latina, Cícero Dantas Martins, o “Barão de Jeremoabo”. Nascido no dia 28 de julho de 1838, na fazenda Cariatá, município de Jeremoabo. Com inúmeras fazendas e grande número de gado de várias espécies, Cícero Dantas Martins possuía grande prestígio em toda a região circunvizinha e também na capital da província: “Elegeu Jeremoabo, em 1869 para Câmara dos Deputados do Império pelo 5º distrito, reelegendo-se em 1872-1877 e finalmente em 1886 participando da última legislatura do Império votando a favor da Lei do Ventre Livre e da Abolição da Escravatura” (CERQUEIRA, 1989:81).
Logo após, Cícero Dantas Martins elegeu-se para o Senado Estadual, também foi Intendente Municipal de Itapicuru para o período 1893/96.
Casado com Mariana da Costa Pinto, teve dois filhos. O Barão costumava dizer que quando morresse, que pelo menos seu coração fosse enterrado em Bom Conselho. Após sua morte em 1903, quando passava um tempo nessa localidade, veio a falecer com a idade de 65 anos, e lá foi sepultado na Igreja de Nossa Senhora do Bom Conselho: “Em virtude da Lei nº 583 de 30 de maio de 1905, em homenagem ao grande político da zona, ‘BARÃO DE JEREMOABO’ a Vila de Bom Conselho passou a ser denominada...Cícero Dantas” (CERQUEIRA, 1989:42).

CAPÍTULO 2 – CÍCERO DANTAS E CANUDOS

É necessário termos o conhecimento dos acontecimentos que se desenrolaram em Bom Conselho/Cícero Dantas, para que, cientes da grandeza da importância da localidade para com Canudos, possamos entender as circunstâncias em que Bom Conselho é citada no livro “Os Sertões”.

2.1 ANTÔNIO CONSELHEIRO
Com as peregrinações de Antônio Vicente Mendes Maciel, o Conselheiro, muitas das vilas do sertão nordestino foram alvo em seu caminho de evangelização e benefícios às populações que habitavam essas localidades. Após ter deixado os sertões do Ceará, Antônio Conselheiro passou a vagar pelo interior do estado de Pernambuco, tendo depois disso indo parar no estado de Alagoas.
A marcha sempre para o sul o impeliu até as paragens das províncias de Sergipe e Bahia, sempre seguido por pessoas devotas e que não tinham muita esperança em se fixar na terra com o intuito de cultivá-la devido aos grandes latifúndios pertencentes a poucos donos. Esses acompanhantes o seguiam por intento próprio, e onde quer que o Conselheiro passasse, pessoas desses lugares o seguiam, aumentando assim, cada vez mais o número de adeptos e ouvintes de suas prédicas.
Há alguns relatos no livro “Os Sertões” onde o Conselheiro, em suas peregrinações, aparece na cidade de Cícero Dantas quando era ainda denominada de “Bom Conselho”, a citação a seguir deixa claro sua passagem na vila como algo constante:
“Em toda esta área não há, talvez, uma cidade ou povoado onde não tenha aparecido. Alagoinhas, Inhambupe, Bom Conselho, Jeremoabo, Cumbe, Mucambo, Massacará, Pombal, Monte Santo, Tucano e outros, viram-no chegar, acompanhado da farândola de fiéis. Em quase todas deixava um traço da passagem: aqui um cemitério arruinado, de muros reconstruídos; além uma igreja renovada; adiante uma capela que se erguia, elegante sempre” (CUNHA, 2007:200).

Com essa citação, fica claro que as passagens do peregrino Antônio Conselheiro eram constantes nas vilas do sertão da Bahia.
Em Bom Conselho/Cícero Dantas, a igreja matriz que fora construída pelo Frei Apolônio de Todi, foi demolida no ano de 1893 (o mesmo ano do estabelecimento do Conselheiro na fazenda dos Canudos, então comarca de Monte Santo) e iniciada a reconstrução da atual no ano de 1894. Um ano após o início dessa empreitada, Antônio Conselheiro deu sua contribuição, enviando pessoas de Canudos para ajudarem na obra.
As madeiras que foram usadas na reconstrução da igreja, foram obtidas pelo peregrino sendo retiradas da Fazenda Bendó de dona Humbelina Gama, fazenda esta localizada no território pertencente à mesma vila, também a escadaria próxima ao altar superdânio fora construído a pedido dele:
“No ano de 1893, chegou a Bom Conselho o senhor Antônio Mendes Maciel, vestido de frade da Ordem de São Francisco, sendo conhecido mais tarde como Antônio Coselheiro.
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Em Bom Conselho, fez transportar a madeira da Fazenda Bendó de dona Humbelina Gama para a Igreja, como também fez a escadaria próximo ao altar superdânio, da mesma Igreja” (CERQUEIRA, 1989:123).

Desde a década de 1880 até meados de 1896, muitos dos lugarejos foram agraciados também com açudes, objetos de grande importância não somente hoje, mas também na época, ainda mais que não havia no interior baiano sistema algum de irrigação promovido pelo governo. A população sertaneja penava sem a ajuda das autoridades que apenas aparecia nesses lugares para a cobrança dos impostos da recém-implantada república, implantada no Brasil em 1889.
As causas do grande rebuliço do povo em mudar-se para Canudos eram, além da grande religiosidade que imperava nos corações dos sertanejos de então, o desenvolvimento social do arraial que atraía os menos abastados.

2.2 O CONSELHEIRO SE ESTABELECE EM CANUDOS
Durante a década de 1880, muitos dos seguidores de Antônio Conselheiro, que haviam acompanhado suas peregrinações pelas vilas dos sertões, começaram a se fixar próximo à cidade de Alagoinhas, tendo desse modo, originado a povoação de Bom Jesus (atual cidade de Crisópolis).
Com a proclamação da república, Antônio Conselheiro começou a combater o novo governo instituído que, por imposição de força, fazia a cobrança dos impostos. Já na época da monarquia, muitas autoridades locais viam com maus olhos a presença do beato nas vilas por onde passava, principalmente a Igreja Católica, pois como a maioria da população dos lugares onde o Conselheiro passava preferia ouvir suas prédicas às do vigário local, outros abandonavam seus afazeres e o seguiam, assim os padres das vilas ficavam sem seus rendimentos que tinham como fonte os batizados e casamentos. O peregrino, nos tempos da monarquia, já havia sido levado pela polícia até a capital da Bahia e de lá para o Ceará, onde fora investigada toda a sua vida, para que se examinassem os fatos que porventura o fizessem culpado, contudo, foi comprovado que ele não cometera crime algum e assim fora liberado voltando à Bahia logo em seguida, onde seus adeptos o aguardavam.
Ele também começou a pregar abertamente contra as leis recentes do regime republicano: o casamento civil, os impostos e a separação da Igreja do estado. Nesse contexto, muitos simpatizantes do regime monárquico o tiveram como esperança de reação, pois Antônio Conselheiro era a favor do casamento realizado somente na Igreja Católica e da união entre a Igreja e o estado, pois assim se fazia na época da monarquia no Brasil. Muitos religiosos dos fins do século XIX no nordeste acreditavam que a separação entre a igreja e o estado simbolizava a ascensão do anticristo, já que a grande maioria dos republicanos pertencia ao movimento positivista, cuja idéia era de que a ciência e o empirismo sobrepujavam a fé, sendo esta última dispensável ao homem.
Tudo indica que a mudança para os Canudos foi uma tentativa de evitar confrontos com as autoridades, já que o arraial do Bom Jesus tinha sido fundado por ele, não havendo uma necessidade iminente da criação de uma nova povoação. Isso fica claro também nas conclusões de Euclides da Cunha a cerca desse assunto, o escritor de “Os Sertões” diz que o Conselheiro já havia escolhido o lugar da fundação do povoado de Belo Monte (Canudos) prevendo conflitos futuros:
“... Antônio Conselheiro, porém, não se iludiu com o inexplicável recuo, que o salvara. Arrastou a matula de fiéis, a que se aliavam, dia a dia, dezenas de prosélitos, pelas trilhas sertanejas fora, seguindo prefixado rumo.
Conhecia o sertão. Percorrera-o todo numa romaria ininterrupta de vinte anos. Sabia de paragens ignotas de onde o não arrancariam. Marcara-as já talvez, prevenindo futuras vicissitudes.
Endireitou, rumo firme, em cheio, para o norte” (CUNHA, 2007:211).

2.3 A QUEBRA DAS TÁBUAS DE IMPOSTOS

Um dos fatos mais polêmicos acerca dos episódios que aconteceram envolvendo os jagunços foi o da quebra das tábuas de impostos fixados em lugares públicos das vilas do sertão, fato ocorrido no início do ano de 1893. A grande maioria dos pesquisadores afirma que esse acontecimento se deu em Bom Conselho/Cícero Dantas, de onde partiram para o lugar onde fundaram o arraial de Canudos. Porém ao analisarmos obras onde há relatos de sobreviventes, essa hipótese parece não proceder.
A passagem de Antônio Conselheiro em Natuba (atual Nova Soure-Ba), no período desse acontecimento envolvendo a questão dos impostos, foi turbulenta, com a cobrança dos mesmos pelas autoridades municipais. Uma rebelião estourou nesse lugar com o envolvimento dos seguidores do Conselheiro, o peregrino não havia dado ordens a esse respeito, mas como já havia acontecido dos jagunços terem aderido à rebelião, o beato cearense lhes prometeu proteção. O depoimento de Manuel Ciriáco, um jagunço sobrevivente do massacre, nos leva a crer que a cobrança dos impostos e a rebelião dos jagunços não ocorreu em Bom Conselho/Cícero Dantas:
“’...Dali foi para Monte Santo fazer reparos na igreja, construir os muros da subida da Divina Santa Cruz. Trabalhou uns meses e largou-se para Uauá. Foi quando, em Natuba, onde tinha caído uma política e subido outra, fazia pouco tempo (Manuel Ciriáco alude à ascenção do regime republicano), o prefeito Chico Dantas, com uma ostentação de fôrça, começou a cobrança de impostos. O Conselheiro estava na terra e o povo sem ouvir o Bom Jesus foi de encontro à autoridade de Chico Dantas, não ligando importância à cobrança e desafiando o homem. O prefeito, apavorado, pediu providências para a Bahia. Foi quando o Conselheiro disse: ‘Vocês vão sofrer com isso mas eu, que cuido de vocês, fico para protegê-los. Os soldados chegaram a Masseté já os jagunços tinham gente que fazia medo: Foi carnificina’” (TAVARES, 1993:43).

Com o depoimento de Manuel Ciriáco, indivíduo que esteve mais perto dos acontecimentos que qualquer escritor que tenha produzido obras sobre “A Guerra de Canudos”, podemos concluir que Euclides da Cunha cometeu um equívoco a afirmar que a quebra das tábuas de impostos aconteceu em Bom Conselho.

2.4 O ÊXODO DA POPULAÇÃO PARA CANUDOS
Com o estabelecimento do peregrino em Canudos, a população de vários estados nordestinos começou a migrar para o povoado à beira do rio Vaza-Barris. A libertação dos escravos, que ocorrera no ano de 1888, era fato recente, como a maioria dos escravos tinha sido libertada sem nenhum direito à posse de terras, muitos ficaram vagando em busca de que a sorte os ajudasse a ter um lugar para se fixarem. Muitos desses ex-escravos acabaram acompanhando Antônio Conselheiro nas suas peregrinações.
Também os indígenas das proximidades do sertão de Canudos se identificaram com sua pregação, muitos indivíduos dos Kiriris, que habitavam as paragens da Mirandela e outros grupos de silvícolas da região do Massacará (atuais regiões pertencentes às cidades de Ribeira do Pombal e de Euclides da Cunha), seguiram em direção do arraial, em busca de dias melhores.
No encalço desses, muitas famílias descendentes dos colonos portugueses e dos holandeses que dominaram vasta região do nordeste no século XVII, tomaram o rumo da cidadela do peregrino. No período do êxodo para os Canudos, o nordeste estava enfrentando uma fase assustadora de seca prolongada, muitas famílias haviam perdido quase tudo, mesmo as mais abastadas tiveram que, além de vender muito do seu patrimônio para o pagamento dos impostos requeridos pelas autoridades municipais, desfazer-se do pouco que sobrara por causa do suplício da falta de chuva.
Nesse contexto, apareceu Antônio Conselheiro fazendo suas prédicas e atribuindo os problemas pelos quais as famílias passavam ao novo regime que se instalara no Brasil.
Toda essa situação acabou trazendo aos corações dessas famílias em desespero uma nova esperança de viver num lugar longe do domínio dos coronéis que eram apoiados pelas forças civis e militares.
As pregações do Conselheiro não se resumiam a uma conotação social, havia também no povo nordestino de modo geral, uma tendência mística cristã, onde a visão dos primeiros dias da igreja dos apóstolos ainda fervilhava em suas consciências. A idéia da comunidade cristã, onde todos partilhassem seus bens adquiridos com o trabalho comunitário viera com toda força, já que o novo século se aproximava e a grande maioria dos sertanejos, mesmo os que não tinham se mudado para Canudos, acreditava que o fim do mundo estava próximo, versos que estavam ecoando em seus corações anunciados pelo peregrino, perduraram até meados dos anos de 1980, eles ainda eram citados pelo povo do sertão até pouco tempo atrás. Esses dizeres traziam a certeza do fim iminente: “’... Adeus mundo!
Até mil e tantos a dois mil não chegarás!” (CUNHA, 2007:204).
A combinação da desolação das propriedades por causa da seca com a crença num fim iminente por causa do milênio que chegava ao fim, a grande maioria da população das localidades próximas do sertão de Canudos, também até de povoados longínquos, não somente da Bahia, mas também da maioria dos estados nordestinos migraram para Canudos:
“Diz uma testemunha: ‘Alguns lugares desta comarca e de outras circunvizinhas, e até do Estado de Sergipe, ficaram desabitados, tal a aluvião de famílias que subiam para os Canudos, lugar escolhido por Antônio Conselheiro para o centro de suas operações. Causava dó verem-se expostos à venda nas feiras, extraordinária quantidade de gado cavalar , vacum, caprino, etc., além de outros objetos, por preços de nonada, como terrenos, casas, etc. O anelo extremo era vender, apurar algum dinheiro e ir reparti-lo com o Santo Conselheiro’” (CUNHA, 2007:214).

A citação acima do Barão de Jeremoabo foi relatada por Euclides da Cunha no seu livro “Os Sertões” com o intuito de demonstrar através de testemunhas locais, a dimensão da migração da população em direção do arraial liderado pelo beato cearense.
Algumas povoações da Bahia aparecem no livro como os lugares de origem dos habitantes de Canudos, Bom Conselho/Cícero Dantas aparece também, porém, não somente como fornecedora de moradores mas também de suprimentos alimentícios:
“Não faltavam braços para a tarefa. Não cessavam reforços e recursos à sociedade acampada no deserto. Metade, por assim dizer, das gentes de Tucano e de Itapicuru para lá abalou. De Alagoinhas, Feira de Santana e Santa Luzia, ia toda sorte de auxílios. De Jeremoabo, Bom Conselho e Simão Dias, grandes fornecimentos de gados” (CUNHA, 2007:229).

Dessa forma, podemos ter a confirmação do grande papel que teve Bom Conselho no apoio à Antônio Conselheiro, como também a presença maciça de indivíduos bonconselhenses no arraial de Canudos, dando apoio, além de lutadores, mas também com alimentos.
Os conselheiristas não eram somente aqueles que haviam migrado para Canudos, mas também aqueles que mesmo tendo permanecido em suas vilas, enviavam auxílios aos canudenses. O próprio exército temia muitos dos sertanejos das vilas vizinhas, pois eles abasteciam o povoado de Canudos com pólvora e munição, havia também espiões dessas vilas que informavam Antônio Conselheiro de tudo o que estava ocorrendo com as tropas federais que se alojavam nesses lugares.
Algumas vezes com esse temor que o exército tinha, muitas pessoas foram interrogadas, inclusive autoridades eclesiásticas, outras ficaram detidas em seus próprios lares sem poderem se ausentar por longos períodos de tempo, pois todos eram suspeitos e a grande maioria dos habitantes das povoações vizinhas de Canudos tinha parentes lá no povoado do Conselheiro.

2.5 A VISITA FINAL DO CONSELHEIRO À BOM CONSELHO
Mesmo após a fixação de Antônio Conselheiro na Fazenda Canudos, ele continuava a fazer suas peregrinações. Muitos povoados ainda necessitavam de ajuda para a construção de igrejas, cemitérios e outros beneficiamentos, essas peregrinações eram acompanhadas por muitos jagunços que se aproximavam mais dos atos religiosos de Canudos do que da parte mais social.
Como sempre, os jagunços apareciam com o peregrino cearense erguendo bandeiras do Divino, as vilas se preparavam para recebê-lo, armava-se uma espécie de palanque no largo e toda a multidão de reunia para ouvir seus conselhos e sermões.
Em Bom Conselho/Cícero Dantas, a igreja matriz, cujo construtor fora o missionário capuchinho Frei Apolônio de Todi, tinha sido demolida no ano de 1893 com o intuito de ser construída novamente, isso aconteceu a partir do ano de 1894: “A velha matriz de Bom Conselho foi demolida em 1893 e iniciada a atual em 1894. Antônio Conselheiro deu sua ajuda com trabalhos e 1895” (CERQUEIRA, 1989:23).
No ano de 1895, Antônio Conselheiro e seus jagunços decidem ir até Bom Conselho/Cícero Dantas com o intuito de pedir esmolas para a construção da igreja nova de Canudos, também junto com esse intento, o peregrino foi até lá para ajudar na reconstrução da Igreja de Nossa Senhora do Bom Conselho, não somente com mão-de-obra, mas também com madeira.
Durante a visita a Bom Conselho, parece ter havido atrito entre os jagunços e representantes locais da justiça. Tudo indica que foram justamente as concepções seguidas pelos jagunços acerca do casamento civil, impostos republicanos, etc., esse confronto levou até mesmo o Juiz Dr. Arlindo Leôni a abandonar a vila para que não acontecesse um confronto direto:
“Em dilatado raio em torno de Canudos, talavam-se fazendas, saqueavam-se lugarejos, conquistavam-se cidades! No Bom Conselho, uma horda atrevida, depois de se apossar da Vila, pô-la em estado de sítio, dispersou as autoridades, a começar pelo juiz da comarca e, como entreato hilariante na razia escandalosa, torturou o escrivão dos casamentos que se viu em palpos de aranhas para impedir que os crentes sarcásticos lhe abrissem, tosquiando-o, uma coroa larga, que lhe justificasse o invadir as atribuições sagradas do vigário” (CUNHA, 2007:225).

Com a visita do Conselheiro, houve tumulto no lugar, onde por pouco não aconteceu um confronto armado, e foi aí justamente quando os jagunços contribuíram com seus trabalhos para a reconstrução da atual igreja matriz da cidade de Bom Conselho/Cícero Dantas.
Há comentários mais detalhados desse ocorrido em outras obras, a população de Bom Conselho parece que já sabia da visita do Conselheiro com antecedência em sua localidade:
“... Quanto a Antônio Conselheiro, aqui esteve e não pude proceder de outra forma e ainda mesmo quando contasse com elementos, deixaria de reagir, atento o procedimento do governo que temos depois que lhe foi entregue pelo meu exímio prelado o Exmo. Sr. D. Jerônimo, o Relatório da Santa Missão dos Canudos. Que providências tomou o Sr. Rodrigues Lima? Nenhuma importância ligou ao Relatório. É preciso que V. Exa. Se convença de que o Antônio Conselheiro não é mais o homem de ontem. Hoje tem foros de governador, e como tal vai promulgando leis, publicando-as e estas vão sendo aceitas pelos infelizes que o acompanham e por uma grande maioria dos habitantes dos lugares onde ele arma tenda para dar conselhos...Vamos ao meu paroquiano e compadre Francisco Pires. Entendia e entendo que quem levou ao conhecimento de V. Exa. Os sofrimentos de que ele foi vítima, e o estrago de que também foi vítima a propriedade do mesmo devia fazer justiça ao pobre padre que imerecidamente dirige os destinos desta sua freguesia, dizendo que foi ele o único que apareceu por ocasião da agressão expondo-se já a ser destacado, já a coisa muito pior...” (SAMPAIO, 1999:114) .

O Padre Vicente Martins escrevendo ao Barão de Jeremoabo, revela que um dos habitantes de Bom Conselho chegou a ser atacado pelos jagunços, ao compararmos com os textos anteriores, parece que Francisco Pires, pessoa agredida pelos seguidores de Antônio Conselheiro e citado pelo Padre Vicente talvez seja o mesmo escrivão de casamentos do texto de “Os Sertões”.
A influência que um vigário tinha nas vilas de então era praticamente a mesma que a grande maioria dos políticos que nelas tinham suas urnas garantidas. Era costume os vigários apoiarem políticos e também receberem seu apoio, muitas vezes os próprios vigários eram eleitos para cargos políticos.
Isso acontecia pelo fato da grande maior parte da população da época ser constituída de analfabetos, com isso os párocos de cada freguesia, por estarem incluídos no número aproximado de 20% da população brasileira com acesso à escola, eles detinham habilidades de leitura, escrita e oratória, pontos importantes para a época quando somente os atos de leitura e escrita eram a ponte para a aquisição de cargos políticos ou qualquer outro cargo público de extrema importância no nosso país. Importante também é lembrarmos que as mulheres não tinham direito de votar, não somente no final do século XIX, mas também em meados da primeira metade do século XX.
Não é um exagero pensarmos desse modo, visto que pode-se afirmar que o domínio que Antônio Conselheiro exercia sobre a população sertaneja não era somente por causa de sua religiosidade, mas por causa de sua escolaridade, pois estudara em sua infância no Ceará, também fora além de comerciante, advogado na defesa dos pobres antes de partir para sua peregrinação.
Com o exercício da advocacia, Antônio Conselheiro desenvolveu habilidades de interpretação de texto, as quais foram muito úteis no desenvolvimento de seus argumentos contra as novas leis da república instalada no Brasil. Essa intelectualidade desenvolvida por ele foi respeitada e admirada enormemente pelos sertanejos que o seguiram, isso parece explicar a dedicação incondicional dos seus associados, porém sabemos que o fator mais forte nesse comportamento da população de Canudos em lutar até a morte e enfrentar sem nenhum medo as autoridades das localidades por onde apareceram, como por exemplo, o Juiz Dr. Arlindo Leôni em Bom Conselho/Cícero Dantas, está atrelado ao sentimento de religiosidade e à expectativa do aparecimento do anticristo seguido do fim do mundo que para eles estava personificado no novo governo que surgiu com a derrubada da monarquia e com a expulsão de D. Pedro II, para os sertanejos, o presidente da república era a encarnação do próprio anticristo.

2.6 O CONFLITO
Durante a peregrinação de Antônio Conselheiro pelos sertões com as suas práticas de evangelização e de ajuda social para com a população esquecida pela igreja, estado e explorada pelos grandes latifundiários, por vezes o peregrino cearense se deparou com a perseguição e até detenção por parte das autoridades mesmo na época da monarquia:
“Como quer que fosse, porém, o certo é que em 1876 a repressão legal o atingiu quando já se ultimara a evolução do seu espírito, imerso de todo no sonho de onde não mais despertaria.
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Para quem estava neste tirocínio de amarguras, aquela ordem de prisão era incidente mínimo. Recebeu-a indiferente. Proibiu aos fiéis que o defendessem. Entregou-se. Levaram-no à Capital da Bahia...” (CUNHA, 2007:198).

Ao ser levado para a capital, o peregrino é espancado e o levam até sua terra natal, o Ceará, para que fosse apurado se ele não houvera cometido algum crime. Depois de feita a observação e constatado que ele não tinha cometido crime algum, é liberado e o mesmo retorna à Bahia onde seus adeptos o aguardavam.
Mesmo com a repressão das autoridades na época da monarquia, Antônio Conselheiro não tivera grandes dificuldades, nem mesmo grandes riscos de vida ao peregrinar e pregar o evangelho pelas paragens do sertão nordestino, mais precisamente o baiano.
É com a chegada da república que com suas pregações e abjurações contra a implantação das recém-chegadas leis o risco de perseguições mais ásperas começa a tomar forma mais real. Isso chegou a um ponto tão preocupante que o Conselheiro deixou o arraial do Bom Jesus (atual Crisópolis-Ba) e foi fundar diretamente um novo povoado à beira do rio Vaza-Barris, pois o novo local escolhido era de difícil acesso.
Dentre muitas causas que foram exaltando os ânimos das autoridades até chegar ao ponto da intervenção armada e o desenrolar do conflito que durou por volta de um ano, pode-se afirmar que foi a visita de Conselheiro à Bom Conselho, O juiz Dr. Arlindo Leôni, no ano de 1895, dirigia a comarca da então vila, quando Antônio Conselheiro e seus seguidores se deslocaram até Juazeiro da Bahia para pegar as madeiras que já haviam sido pagas e o vendedor não quisera entregar, o Juiz de Juazeiro, que telegrafara às autoridades em Salvador fora o mesmo juiz que em Bom Conselho teve de abandonar a comarca visitada pelos conselheiristas, na verdade Dr. Arlindo fora transferido para Juazeiro após a ida dos jagunços a Bom Conselho/Cícero Dantas:

“O principal representante da justiça do Juazeiro tinha velha dívida a saldar com o agitador sertanejo, desde a época em que, sendo juiz do Bom Conselho, fora coagido a abandonar precipitadamente a comarca, assaltada pelos adeptos daquele.
Aproveitou, por isso, a situação, que surgia a talho para a desafronta. Sabia que o adversário revidaria à provocação mais ligeira. De fato, ante a violação do trato aquele retrucou com a ameaça de uma investida sobre a bela povoação do S. Francisco: as madeiras seriam de lá arrebatadas à força ” (CUNHA, 2007:253).

2.6.1 O Estopim
Esse acontecimento em Bom Conselho/Cícero Dantas parece ter sido o principal fator que originou a tentativa do juiz Dr. Arlindo em ter uma revanche com o peregrino, podemos notar que a ida do Conselheiro até Juazeiro para buscar madeira foi utilizada pelo juiz para poder denunciá-lo à capital baiana e assim o governo do estado pudesse tomar as devidas providências, atacar os jagunços e por um fim na agitação do povoado de Canudos que estava atraindo muitas pessoas para seus termos.
Todo o desenrolar do conflito após este incidente parece ter sido originado nele, a vinda das expedições, a primeira, essa requerida pelo juiz de Juazeiro onde um contingente da força estadual, comandada pelo Tenente Manuel da Silva Pires Ferreira, foi destroçada na povoação de Uauá, a segunda, comandada pelo major Febrônio de Brito, foi atacada e repelida pelos jagunços próximo à serra do Cambaio, próximo a Canudos.
Com as derrotas da polícia estadual, o governo baiano acabou por pedir auxílio ao governo federal, que na época, era presidido por Prudente de Morais, o primeiro presidente civil após a proclamação da república no país.
Para a terceira expedição das forças legais, e a primeira do exército brasileiro, foi convocado o coronel Antônio Moreira César, considerado pelos soldados de então como um herói do exército, ele havia comandado as tropas que foram vitoriosas na Revolução Federalista que ocorrera no Rio Grande do Sul entre os anos de 1893-1895, Moreira César ficou estabelecido na província de Santa Catarina onde dava ordens às tropas e executou sumariamente seus adversários sem julgamento algum. Dentre os que foram executados sumariamente estava um médico baiano chamado Alfredo Paulo de Freitas, como a esposa do médico não obtivera notícias do marido, fora ao palácio do governo para saber do paradeiro do esposo, quem a recebeu fora o próprio Coronel Moreira César. Quando ele tomou conhecimento de que a mulher era esposa do médico, ele comunicou-lhe que seu marido havia sido preso e levado ao Rio de Janeiro, mas que não se preocupasse, ele em breve voltaria, porém o próprio Moreira César havia ordenado executá-lo.
A terceira expedição à Canudos foi derrotada, mesmo tendo chegado à povoação, ter entrado e lutado corpo a corpo com os jagunços. A principal causa da derrota, além da invasão do arraial sem que os soldados tivessem se alimentado e descansado, coisas que foram proibidas pelo Coronel Moreira César, foi também o ato precipitado do coronel em ir à linha de fogo e, ao adentrar o povoado que estava sendo atacado, fora atingido por tiros.

2.6.2 Uma História dentro da História
Segundo um jagunço sobrevivente, o tiro que atingira o coronel não partira dos jagunços, mas de um soldado que fora contratado por uma viúva de um médico que fora morto pelo coronel, o tiro fora a vingança dessa viúva:

“’...Depois foi Moreira César. Êste parecia que somente havia vindo para entregar aquêle despropósito de material aos jagunços’.
Ao lado de dois companheiros, Manoel Ciriáco dá uma risada clara e gostosa:
- ‘Seu moço, esse Moreira César já veio ‘encomendado’ para morrer. Não foi jagunço que matou ele não. Uma viúva, cujo marido havia sido assassinado por ele, mandou um soldado vingar o finado. Quando Moreira César entrou, como um doido, de arraial a dentro, ninguém atirou no homem, de lá não partiu um só tiro. O soldado foi quem aproveitou e tome bala. A história verdadeira é esta e pode ser repetida por tôda esta redondeza’” (TAVARES, 1993:44) .

2.7 A QUARTA EXPEDIÇÃO

A quarta expedição, a segunda do exército, foi a mais duradoura e a que requereu o maior esforço deste para que o arraial fosse de uma vez por todas riscado do mapa do país. Nessa expedição, sob o comando do general Artur Oscar de Andrade Guimarães, o ministro da guerra, Carlos Machado Bittencourt, fora convocado para vir para o sertão da Bahia.
A finalidade de todo o aparato bélico utilizado na guerra tinha o propósito de destruir de uma vez por todas o arraial, e foi o que realmente aconteceu, a força do exército foi infinitamente superior à dos sertanejos, a metralhadora, a dinamite, a granada foram largamente usadas pelas forças legais contra a povoação dos beatos.

CAPÍTULO 3 – OS JAGUNÇOS E BOM CONSELHO/CÍCERO DANTAS

Os seguidores de Antônio Conselheiro vieram dos mais variados lugares do nordeste brasileiro, porém a maioria era originária da Bahia, dentre as principais personagens que estiveram ao lado do beato cearense encontravam-se pessoas que tinham um estreito laço com Bom Conselho ou pelo menos recorreu às suas paragens quando o aperto do conflito se fez mais forte.

3.1 CONTINGENTES
Durante as andanças de Antônio Conselheiro, muitas pessoas que habitavam as localidades pelas quais ele passava, acabavam seguindo-o. Na grande maioria das vezes, esses adeptos eram pessoas pobres que necessitavam de ajuda para se alimentarem devido a impossibilidade de cultivo da terra, pois havia falta de acesso das mesmas por causa do domínio dos grandes latifundiários.
Pode-se mencionar também o fato de os ex-escravos não haverem sido indenizados após sua libertação, isso fez com que eles vissem no peregrino uma chance de melhorias já que as esmolas angariadas por ele, eram divididas entre os necessitados.
Havia também muitos seguidores que o acompanhavam por causa da religião, de formação católica, a maioria da população sertaneja tinha a prática da piedade como um caminho de virtudes que os levaria a um estado de glória depois da morte. A penosa vida do morador da zona rural no nordeste brasileiro dos fins do século XIX forçava os seus habitantes a procurarem refúgio em Deus, o único que podia mudar a sorte daquele tão sofrido povo. Quando Antônio Conselheiro apareceu pregando os evangelhos onde a maioria dos padres evitava ir, trouxe esperança para esses habitantes esquecidos, ou quando visitados, a mensagem dos padres era sempre de ásperas advertências e admoestações de prováveis futuras punições para aqueles que desobedecessem a igreja.
Esse contraste nas mensagens dos padres para com as prédicas do Conselheiro foi crucial para que o povo preferisse esse último.
A junção dos itens como a religiosidade e a melhoria social foi o fator decisivo para a migração em massa do povo sertanejo para a nova povoação. Dentre os recém-chegados, havia uma enorme variedade de procedências, desde vaqueiros religiosos, famílias inteiras, pequenos e grandes produtores rurais, por fim bandidos que haviam ouvido as palavras do peregrino e que desde então passaram a fazer a segurança do arraial.
Bom Conselho, por estar nas proximidades do arraial de Canudos, teve um papel importante no abastecimento de pessoas para os mais diversos postos na cidadela dos beatos, também a vila esteve presente cumprindo outros papéis além de fornecer alimentos e contingentes de pessoas para Canudos.

3.2 JOÃO ABADE
Com o recrutamento de pessoas para que a segurança do arraial de Canudos pudesse ser realizada com precisão, havia a necessidade de um comandante, um líder que tivesse acesso tanto ao Conselheiro como ao povo, mesmo os mais carentes e que morassem distantes dos santuários onde o peregrino passava a maior parte do tempo, raramente abandonando seus termos.
Antes mesmo da fixação de Antônio Conselheiro às margens do rio Vaza-Barris, na fazenda dos Canudos, João Abade já liderava os jagunços. Quando houve o confronto dos conselheiristas com uma tropa da polícia estadual no lugar denominado “Masseté”, logo após a quebra das tábuas de impostos em Natuba (Nova Soure-Ba), no mês de maio de 1893, conflito esse que parece ter acelerado o estabelecimento do Conselheiro em Canudos, João Abade já fazia a chefia dos jagunços, “...O bacharel Salomão de Souza Dantas, promotor público de Monte Santo, encontrou-o, nos dias que precederam ao embate em Masseté, em plena ação de chefia” (CALASANS, 1986:37).
Com a fixação dos jagunços em Canudos, houve a criação da Guarda Católica ou Companhia do Bom Jesus, que servia como defesa pessoal do Conselheiro, bem como para a proteção de todo o arraial. Essa força de Canudos contava com um grupo de pessoas valentes, remuneradas e obedientes, tendo em sua liderança o “chefe do povo”, “comandante da rua”, títulos dados a João Abade.
Seu Abade, como era chamado, nascera na então em Tucano, criara-se na Vila de Buracos, município de Bom Conselho/Cícero Dantas e entrara para a vida do cangaço tendo a orientação de alguns habitantes de Pombal (atual cidade de Ribeira do Pombal-Ba). O seu apelido viera por causa da calvície na parte detrás da cabeça como o modelo do cabelo de um frade.
Com a procedência do ”chefe do povo” vindo de Bom Conselho, pode-se perceber a importância que essa localidade, das proximidades do sertão de Canudos, teve no desenrolar do drama sertanejo, o “braço direito” do Conselheiro fora educado em seus termos, antes de atingir a idade adulta e de seguir o peregrino junto com muitas outras pessoas procedentes do mesmo lugar em que João Abade fora criado.
O respeito que ele angariara da população fora conquistado pelo fato dele ter estudado, poucos jagunços de Canudos tiveram acesso à educação, a grande maioria era composta de analfabetos. João Abade usava um apito que ao necessitar um ajuntamento rápido de pessoas para o auxiliarem, bastava que ele soprasse seu apito e imediatamente fazia-se um “enxame” de pessoas próximas a ele. Sempre que chegavam novos lutadores para defenderem a causa do Conselheiro, João Abade era o primeiro a recebê-los.
Muitos dos novos que chegavam ao arraial vinham com muitas armas, munição e pólvora à vontade, entravam pelo largo do povoado sem que ninguém perguntasse pela sua procedência, ao se depararem com João Abade, o “tenente” do peregrino os disciplinava e os dominava ao ponto dos lutadores lhe obedecerem incondicionalmente.
Durante todo o desenrolar do conflito, o “chefe do povo” se manteve em sua posição de comando, sempre com o intuito de repelir as tropas legais, há o testemunho de uma sobrevivente que ao ser entrevistada no ano de 1947, diz que Antônio Conselheiro havia decidido se entregar para que não houvesse uma mortandade maior, porém João Abade não aceitou a rendição e continuou a liderar o combate:
“’... O Conselheiro vendo a coisa perdida, mandou destruir propriedades, numa redondeza de cinco léguas para os soldados não se aproveitarem. Êle já não podia controlar a situação, por ele não teria havido tanto horror. Eu ouvi, uma vez, falar para o povo, dizer que os homens deviam render-se, por que senão êles não protegeriam mais os chefes. Mas não adiantou, João Abade continuou chefiando a luta, bravo que só êle’” (TAVARES, 1993:41).
Com o ataque das forças legais, João Abade fora atingido por um estilhaço quando cruzava a praça em direção do Santuário, onde morava o Conselheiro, isso aconteceu no mês de agosto de 1897. Canudos teve um chefe de luta muito inteligente e corajoso, mesmo sabendo da derrota inevitável, ele manteve a liderança até o momento de sua morte.

3.3 NORBERTO DAS BAIXAS
Com a morte de João Abade e de outros cabecilhas de renome como Pajeú (pernambucano), Mancambira, entre ouros, houve a necessidade da escolha de uma nova pessoa na liderança da Guarda Católica criada por Antônio Conselheiro, como os mais hábeis já haviam morrido, Joaquim Norberto fora escolhido para o comando da resistência conselheirista que a cada dia ficava mais desfalcada por causa da morte de seus lutadores:
“... Haviam desaparecido os principais guerrilheiros: Pajeú, nos últimos combates de julho; o sinistro João Abade, em agosto; o ardiloso Mancambira, recentemente; José Venâncio e outros. Restavam como figuras principais Pedrão, o terrível defensor de Cocorobó, e Joaquim Norberto, guindado ao comando pela carência de outros melhores...” (CUNHA, 2007:543).

Sobre as origens de Joaquim Norberto, não se tem informações seguras, porém o que há de certo é que ele era dono de uma fazenda em Bom Conselho, suas terras que tinham o nome de “Baixas” serviam-lhe como sobrenome.
Norberto era fornecedor do Conselheiro, de suas propriedades, ele extraía madeiras para o uso da comunidade de Canudos. Sua esposa chamava-se Ana cujo apelido era Nanã. Seus filhos perfaziam a conta de doze, seis morreram na guerra ficando cinco vivos, porém três deles foram levados pelo exército para a capital baiana para adoção, visto que Joaquim Norberto e sua esposa ambos pereceram na guerra, dois outros dos cinco que haviam sobrevivido, ficaram sob a proteção do juiz preparador de Pombal, Dr. Manoel Martins de Almeida.
Homem de grande importância em Canudos, Norberto tinham laços próximos com o peregrino cearense, os dois eram compadres, no nordeste, antigamente, dar seus filhos para uma pessoa próxima batizar, era um dos laços de amizade que mais representava respeito dentro da sociedade. Muitos dos defensores de Canudos tinham um elevado status na comunidade por justamente serem compadres de Antônio Conselheiro.
A morte de Joaquim Norberto provocou grande revolta entre os jagunços, o correspondente do “Diário de Notícias”, um jornalista enviado para cobrir o conflito sertanejo afirmou que a possível morte de Joaquim Norberto sucedeu no dia 5 de setembro de 1897, um cabo do 26º o atingiu quando Norberto passava por defronte da igreja nova, de botas, calças brancas, paletó e chapéu-do-chile, ele trazia em sua mão uma folha de papel branco. O soldado que o atingiu, esperou o momento em que, durante sua travessia, o vento deu-lhe no chapéu, provavelmente o cabecilha se distraiu segurando o chapéu e então foi atingido.
No princípio, não se soube exatamente quem era a pessoa que fora atingida, muitos haviam pensado que quem morrera fora Antônio Vilanova, o comerciante mais abastado de Canudos, porém com o interrogatório feito a um jagunço preso, ficou-se sabendo que quem fora atingido pelo soldado fora Joaquim Norberto: “’... Na última carta noticiei a morte de um homem que se presumia ser o chefe Vilanova, mas um jagunço que foi aprisionado disse-nos ter sido o Senhorzinho Norberto, negociante forte fornecedor do Conselheiro’” (CALASANS, 1986:66).
Podemos, gradualmente observar a importância do papel de fornecimento, tanto de bens e produtos como do auxílio de pessoas de Bom Conselho em Canudos, desde sua fundação até seu termo no ano de 1897, quando o povoado às margens do Vaza-Barris fora destruído pelas forças do governo federal.

3.4 BERNABÉ JOSÉ DE CARVALHO
Nos últimos momentos da resistência de Canudos, muita coisa estava sendo conhecida pelo exército, isto é, como o arraial tinha sido construído num lugar inóspito, pelo menos para pessoas que habitavam o litoral, pouco se sabia até mesmo sobre a própria população do povoado.
Durante os ataques, as forças legais estavam aprisionando e logo aniquilando um por um dos capturados, o único motivo pelo qual o exército estava poupando algumas pessoas era a idade, geralmente quando o prisioneiro era criança numa idade que não permitisse o manejo de armas ou quando fosse muito velho ao ponto de também não representar ameaça aos soldados, também, as mulheres que não demonstrassem tendência agressiva eram poupadas.
Nos últimos e dramáticos momentos da Canudos Conselheirista, segundo algumas hipóteses, urgia a necessidade dos jagunços lutarem mais desafogadamente, então, muitos dos idosos, crianças e mulheres se entregaram, dessa maneira, os poucos mantimentos que ainda havia no arraial, ficariam disponíveis aos lutadores.
Para que acontecesse a rendição dessa parte da população de Canudos, dois jagunços ergueram uma bandeira branca e foram dialogar com as autoridades militares para que a entrega dos prisioneiros fosse negociada, um desses jagunços era Antônio, o Beatinho, esse jagunço, tudo indica que foi um dos primeiros a chegar a Canudos no momento de sua fundação. O outro jagunço que acompanhou o Beatinho para a negociação da rendição se chamava Bernabé José de Carvalho, segundo Euclides da Cunha, ele era um chefe de segunda linha:
“Tinha o tipo flamengo, lembrando talvez, o que não é exagerada conjetura, a ascendência de holandeses que tão largos anos por aqueles territórios do norte trataram com o indígena.
Brilhavam-lhe, varonis, os olhos azuis e grandes; o cabelo alourado revestia-lhe, basto, a cabeça chata e enérgica.
Apresentou logo como credencial o mostrar-se duma linhagem superior. Não era um matuto largado. Era casado com uma sobrinha do capitão Pedro Celeste, de Bom Conselho...” (CUNHA, 2007:592).

Bernabé José de Carvalho, junto com Antônio, o Beatinho haviam ido conversar com o general Artur Oscar no dia 2 de outubro de 1897, isto é, quatro dias antes do aniquilamento completo do arraial. As anotações que Euclides da Cunha fez em sua Cardeneta, demonstram que Bernabé tinha sido beato do padre José Vieira Sampaio do Riacho da Casa Nova.
Ao negociarem com o general Artur Oscar a rendição, Antônio, o Beatinho estava com medo de voltar para o arraial sob a alegação de serem mortos pelos jagunços que haviam ficado no povoado, pois segundo o Beatinho, essa atitude deles causou revolta entre os jagunços, nessa ocasião, Bernabé José de Carvalho se prontificou em conversar com os jagunços para que a rendição fosse efetuada.
Há versões diferentes sobre o que acontecera com o jagunço Bernabé:
“... Reconheceu Antônio Beatinho, que estava receoso de voltar ao arraial, temendo perder a vida. Por ordem de Artur Oscar, seguiram juntos para convencer a jagunçada a se render. Retornaram ao acampamento militar, trazendo centenas de companheiros, uma massa faminta, desnuda, ferida, morrendo de sede. Segundo Fávila Nunes, o sertanejo de olhos azuis voltou (Walnice Galvão, 08: p. 202). Euclides dá a entender que não (Euclides da Cunha, 06: p. 606)...
O acadêmico de medicina Alvim Martins Horcades, que o conservadorismo da época deve ter considerado um boquirroto, sem mencionar o nome de Bernabé, fala em Antônio Beatinho e seus dois companheiros, encarregados de trazer os jagunços recalcitrantes. O general Artur Oscar garantiu a vida de todos eles. Os três emissários, todavia, foram degolados às 8 horas da noite do dia 3 de outubro de 1897. Com eles, mais quinze sertanejos do Bom Jesus Conselheiro. É o seu depoimento (Martins Horcades, 10: p. 110)” (CALASANS, 1986:49) .

Vemos aqui, mais uma pessoa que tinha estreitos laços com a então Bom Conselho, muitas outras não tiveram um grande papel de destaque no arraial de Canudos, pelo menos o que se sabe até agora, somente poucos de Bom Conselho aparecem com funções de destaque no povoado do Vaza-Barris. Apesar do número de pessoas influentes em Canudos de lá de Bom Conselho ser pequeno, os poucos que se destacaram, tiveram grandes influências no arraial.

3.5 O VELHO MARIANO
Com a destruição completa do arraial de Canudos, o exército se retirou, os prisioneiros em sua maioria foram executados sumariamente e os poucos que foram poupados, foram levados para a capital da Bahia, Salvador. Muitos soldados de diversos estados também levaram alguns órfãos cujos pais morreram no massacre para que não ficassem abandonados à sorte e morressem à míngua. Porém, pouco antes do desfecho da guerra, muita gente que habitava a cidadela de Canudos conseguiu fugir por entre as brechas do cerco das forças legais.
Muitos jagunços foram morar nas fazendas das redondezas do arraial, outros foram para algumas vilas vizinhas e lá moraram durante um longo período. Canudos, após a guerra, se tronou um lugar desabitado, os corpos que ficaram apodrecendo no arraial destruído foram sendo sepultados por um rico fazendeiro das redondezas, e durante uma década, não houve sequer uma casa no lugar, alguns tropeiros e mascates somente faziam a passagem pelo local desolado:
“’Era de fazer mêdo. A podridão fedia a léguas de distância, os bichos a gente via correndo pelos cadáveres e urubu fazia nuvem. Tudo abandonado, ninguém ficou enterrado. Foi quando Ângelo dos Reis, por sua própria caridade, trouxe uns homens e enterrou ali mesmo a jagunçada morta. Tôdas essas colinas que o senhor vê estão cheias de ossos de jagunço. Acabou-se Canudos e durante uns dez anos, só se vinha aqui de passagem. Casa nenhuma até 1909. E o pessoal que se salvou morava pelas fazendas, a feira mais próxima em Riacho da Pedra’” (TAVARES, 1993:48).

Após anos, talvez a saudade começara a apertar os corações de uns poucos que haviam presenciado o auge do povoado, então aos poucos essas pessoas começaram a voltar para o lugar, um dos primeiros a voltar para o lugar que havia sido o próspero arraial foi o velho Mariano, que quando a luta aconteceu, ele já tinha uns cinqüenta anos de idade, ele era destemido e bom no rifle:
“... O velho Mariano, na sua expressão dolorosa, como que não toma conhecimento de nossa presença. A muitas de nossas perguntas, não responde, ou faz com monossílabos evasivos, como que evitando se comprometer, como quem responde a inquérito policial. Tem-se a impressão que já perdeu a razão. Mas quando fora do casebre, alguém sussurra que ele matou muita gente, vem a resposta enérgica:
- ‘Eu não matei ninguém não!’
- ‘Tomou parte nos combates?’
- ‘Não’.
-‘Ajudou o Conselheiro?’
-‘Quem não ajudava?’
- ‘Teve todo o tempo com êle?’
- ‘Antes de acabar a luta, fui para o Bom Conselho!’
- ‘Que tal o Conselheiro?’
- ‘Só podia ser um santo homem. Não mandava matar, não mandava mentir, não mandava furtar. Só levava para o bem. Quem quis se desgraçar, se desgraçou...’
- ‘E depois da luta?’
- ‘Voltei para Canudos, fui um dos primeiros que voltaram para estas redondezas, onde antigamente o verde das folhas não faltava. Hoje, seca é todo ano ...’ (TAVARES, 1993:51).

Podemos ver que, mesmo depois da destruição da cidadela de Canudos, o papel que Bom Conselho desempenhou nessa história se estendeu até a sua reconstrução, com esse depoimento, vemos que dos primeiros que voltaram para o lugar dantes habitado pelos jagunços, o velho Mariano refugiara-se em Bom Conselho.
Com o passar do tempo, com as lembranças dos bons tempos vividos pela fé no iminente reino de Deus que viria se instalar na terra, com o governo do Cristo de Deus, Jesus de Nazaré, dessa maneira os jagunços que haviam se refugiado nas caatingas ou em vilas próximas da então extinta Canudos, começava a retornar aos poucos e reconstruíram-na a partir do ano de 1909.
Desde então, algumas das famílias que retornaram para o lugar da Canudos Conselheirista, mantiveram a esperança da ressurreição do Conselheiro e de sua vinda junto de Jesus Cristo para destruir de uma vez por todas a república que se instalara no Brasil.

Considerações Finais

Tendo em vista os fatos analisados no presente trabalho, a cidade de Bom Conselho/Cícero Dantas, com os argumentos levantados e analisados neste trabalho, merece um destaque maior no cenário acadêmico nacional, e por que não dizer internacional?
Desde sua fundação, quando a localidade ainda se chamava de Freguesia de Nossa Senhora do Bom Conselho até o período onde ela foi elevada à categoria de Vila e depois passou a se chamar “Cícero Dantas” (há hipóteses de que a mudança do nome da localidade e de outros lugares com alguma importância no conflito, foi uma espécie de “queima de arquivo histórico”, assim como a inundação pelo represamento do rio Vaza-Barris no final da década de 1960, submergindo a “Canudos Conselheirista” para que outra fosse construída um pouco mais distante do seu lugar original), Bom Conselho tem exercido certo papel de referência quando se quer definir o que é ser sertanejo.
As visitas de Antônio Conselheiro, acompanhado de seus seguidores, os fatos ocorridos nessas passagens e a ligação que algumas das principais personagens de certo relevo em Canudos teve com Bom Conselho/Cícero Dantas, nos faz refletir e crer que tanto as poucas citações na obra que alguns eruditos denominaram de “Bíblia da Nacionalidade” (Os Sertões de Euclides da Cunha) como o quase inexistente destaque no cenário literário atual do Brasil, a cidade de Cícero Dantas esteve entre as mais influentes localidades da época e foi de extrema importância não somente no desenrolar do conflito, mas até mesmo na reconstrução de Canudos quando da volta de alguns sobreviventes ao lugar que antes abrigava, em pequeninas casas de taipa, os sertanejos que um dia viveram e realizaram uma utopia, o povoado de Belo Monte, comumente conhecido como Canudos.


Referências Bibliográficas:

ARAS, Jose. No sertao do conselheiro. Salvador, Ba: Contexto e Arte, 2003.

CALASANS, Jose. Quase biografias de jaguncos: (o sequito de Antonio Conselheiro). Salvador, Ba: UFBA, Centro de Estudos Baianos, 1986.

CERQUEIRA, Telma Antonieta Sousa. Bom conselho dos montes do Boqueirao: Cicero Dantas. Salvador, Ba: Arco-Iris, 1989.

CUNHA, Euclides da. Os Sertões (Campanha de Canudos). São Paulo: Editora Martin Claret, 2007.

GONCALVES, Osvaldo de Sales. Cicero Dantas : 100 anos. Bahia: [s. n.], 1975.

LAKATOS, Eva Maria; MARCONI, Marina de Andrade. Metodologia do trabalho científico. 3. ed. São Paulo: Atlas, 1991.
MACEDO, José Rivair; MAESTRI, Mário. Belo Monte: uma história da Guerra de Canudos. 4. ed. São Paulo: Expressão Popular, 2004.

NOGUEIRA, Jose Carlos de Ataliba. Antonio Conselheiro e canudos : revisao historica. Sao Paulo: Comp. Ed. Nacional, 1974.

QUEIROZ, Maria Isaura Pereira de. O messianismo no Brasil e no mundo. 2. ed Sao Paulo: Alfa-Ômega, 1977.

SAMPAIO, Consuelo Novais (Org.). Canudos: cartas para o barão. São Paulo: EDUSP, c1999.

TAVARES, Odorico. CONSELHO ESTADUAL DE CULTURA (BA). ACADEMIA DE LETRAS DA BAHIA. FUNDAÇÃO CULTURAL DO ESTADO DA BAHIA. Canudos cinquenta anos depois: (1947). [Salvador]: Conselho Estadual de Cultura, Academia de Letras da Bahia, 1993.

Sites Consultados:

http://guerradecanudos.vilabol.uol.com.br/canudos.html, acessado em 05 de setembro de 2011.

http://pt.wikipedia.org/wiki/Ant%C3%B4nio_Moreira_C%C3%A9sar, acessado em 05 de setembro de 2011.

http://pt.wikipedia.org/wiki/Cris%C3%B3polis, acessado em 05 de setembro de 2011.

http://pt.wikipedia.org/wiki/Nova_Soure, acessado em 05 de setembro de 2011.