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sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Testemunha Ocular

Capítulo I

Rumo ao Desconhecido

Joseph Bryan McKagan acaba de desembarcar no porto de São Salvador, ele decide abandonar os Estados Unidos da América, país de onde vem. Nascido e criado na cidade de Cleveland, estado de Ohio, seu nascimento data de 10 de novembro de 1843. Seu pai, John McKagan é assassinado por alguns indivíduos dos Estados Confederados pela simples causa de abastecer o exército da união com víveres, pois ele era criador de gado e grande fazendeiro na área rural de Cleveland. Sarah McKagan, sua mãe já havia morrido há anos de pneumonia. Como era filho único, John cai na melancolia por causa da sua orfandade e decide ir até Nova York e de lá pegar um navio para “qualquer” destino. No momento em que chega ao porto, decide embarcar num navio que, além de passageiros, transporta produtos manufaturados para o Brasil e Argentina. O navio Seawind ancora em São Salvador no dia 28 de Março de 1864, Joseph McKagan desembarca, o navio segue para a capital do Império, Rio de Janeiro, e de lá segue para a Argentina. Em São Salvador, Joseph sofre um bocado por causa da dificuldade de comunicação causada pela diferença do seu idioma. Com o dinheiro que ele conseguiu se desfazendo dos bens de sua família ele consegue alugar um quarto numa hospedaria de um outro americano que mora em São Salvador, seu nome é George Hamilton, texano que fugiu dos Estados Confederados por deserdar do exército sulista. Joseph aprende português com George, e como pagamento, Joseph trabalha de caixeiro na hospedaria do texano. Todos os dias Joseph vê chegar na hospedaria tropeiros que vêm do sertão trazendo seus produtos para vendê-los na capital da província e voltam com produtos manufaturados para vendê-los aos sertanejos que não os produzem. Joseph percebe que se continuar trabalhando somente em troca das aulas de português, logo o seu dinheiro acabará, pois a alimentação e outras necessidades lhes são supridas com o dinheiro que ele trouxe consigo da América. Joseph decide comprar umas mulas e depois de um ano morando na capital, decide adentrar o sertão em busca de seu próprio rincão. Distante de São Salvador, cerca de umas cinquenta léguas, Joseph se instala numa localidade chamada Freguesia de Nossa Senhora do Bom Conselho dos Montes do Boqueirão, lugar com calor mais brando, devido aos montes que invadem toda aquela região. Passam-se 15 anos, o americano de Ohio casa-se com Jovelina Oliveira, nascem-lhe dez filhos, seis meninos e quatro meninas. O sítio dos McKagan dista duas léguas de Bom Conselho na direção oeste. Na Cavunza, aos arredores de Bom Conselho, a população se prepara para o ano novo, e seu Avelino Souza, morador dessa localidade faz um convite a Joseph:
_ Lovado seja o Nosso Sinhô Jesus Cristo!
_ Para sempre ser louvado tão bom Senhor!
_ Seu Zé Maquêgo, como vai a famía?
_ Ir bem seu Avelino... e seu família?
_ Vai na potreção do Nosso Sinhô Jesus Cristo... Nóis ta convidano voismicê e sua famía pra í prum samba lá na nossa casa, e nóis qué que voismicê leve o violão pra tocá umas cantiga pra nóis. Tonho de Xica já vai levá uns cabra pra tocá baião lá, e voismicê canta suas cantiga das terra grande istrangêra.
_ Eu vai com meu família, mas eu toco de graça, não cobra nada pra tocar pra voismicê, fazer favor de avisar os homens pra eles andar com os bacamartes, pois tem uns jagunços de major Augusto que tá roubando ovelhas e onde tem samba eles tão indo pra roubar a povo. Meu filho mais antigo é doze anos e eu já dei um trabuco pra ele se defender desses pessoas.


Capítulo II

Autoridades Criminosas

_ Se alevante Zé!
_ Me acuda!
_ Calma Homi! é eu... o véio Avilino!
_ Adonde tá papai?
_ Se alevante se não os cabra do major Augusto pode voltá de novo!
_ cadê papai?
_ Ói minino, pode dexá qui eu tomo conta de voismicê de hoje em diante!!
_ Não, eu quero sabê adonde tá papai!!
_ É... sua famía todinha foi morta pelos cabra do major Augusto.
_ O quê? Eu vou matá aquele fila da puta!!!
O velho Avelino passa a tomar conta de José Oliveira MacKeigan, o primogênito do velho Joseph que agora repousa no pó da terra com toda sua família.
O menino de doze anos fica sabendo que com sua influência política o major Augusto acaba por tomar as terras do velho Joseph se utilizando de amizades com as autoridades de Bom Conselho. O pequeno José agora se vê sem sua herança, tendo que, de modo forçado, virar adulto.
Assim o velho Avelino acaba adotando o menino José.
Como de costume, toda segunda-feira, o seu Avelino leva seus produtos para serem vendidos na feira livre de Bom Conselho. José acompanha Seu Avelino, com um ar de vingança inundando todo o seu ser, José passa a tramar a morte do major Augusto, que vez ou outra passa montado a cavalo pela frente da igreja matriz de Bom conselho fazendo o sinal da cruz, José finge ter esquecido o que aconteceu com sua família, mesmo assim ele acautela-se em manter certa distância do major pois sempre este é rodeado por seus jagunços.
O major Augusto é um dos maiores latifundiários da região circunvizinha de Bom Conselho, a maioria de suas terras foram adquiridas através de ameaças e usurpadas de pequenos agricultores. Muito das terras dessa região são devolutas, então sempre que um pequeno agricultor beneficiava uma boa parte fértil dessas terras, quando começava-se a plantar e a criar gado, o major de modo violento tentava primeiro expulsar o dono da terra junto com sua família e se apossar do lugar. Quando o pequeno criador resistia as ameaças do major, ele enviava seus jagunços e exterminava um por um da família dona da terra. Quando acontecia de um ou mais da família escapar da chacina, se fosse criança normalmente o major não tornava a atacá-las, pois era comum os sobreviventes migrarem para o litoral por causa de ficarem sem as terras.
Muitas vezes, os próprios juízes de paz das comarcas de vilas vizinhas e da própria Bom Conselho protegiam o major em troca de ficarem com um pouco das terras roubadas, os líderes políticos das vilas também faziam isso, às vezes eles se reuniam com o major para manipularem as eleições e dirigí-las ao seu bel prazer, se utilizando da força militar que o major possuía.

Capítulo III

Descobrindo os Amores

Quando José completou seus 15 anos de idade, o velho Avelino o levou a um bordéu para que o garoto tivesse sua primeira relação sexual, como era de costume no sertão naquela época.
O bordéu que seu Avelino levou o garoto era normalmente freqüentado por grandes fazendeiros da redondeza, o velho tinha um pouco de terras produtivas que não foram tomadas pelas autoridades por causa da amizade que o velho tinha com o vigário da paróquia local.
José foi entregue aos cuidados de uma prostituta muito cara chamada Filomena, uma linda mulher de cabelos negros encaracolados, pele alva, as curvas de seu corpo era de envolver a atenção de qualquer homem, ela usava geralmente vestidos longos e vermelhos muito justos realçando a delicadeza de seu lindo corpo.
Ao entrar no bordéu, seu Avelino pagou adiantado a garota e ela levou José até o seu quarto que ficava no andar de cima. Logo que José viu-a se despir aos poucos em sua frente o garoto sentiu algo como uma mistura de vergonha e forte atração em possuir o corpo da mulher, porém o menino não se adiantou. Filomena pediu para José se sentar na cama, ela se sentou ao seu lado e vagarosamente ela começou a beijar a boca do garoto e foi descendo pelo peito e barriga do menino, desabotoou a camisa dele e a calça, derrepente ele sentiu a boca molhada da mulher deslizar pela sua verilha, o menino soltou um forte suspiro...
Ela levantou-se, passou uma das pernas sobre o garoto que se encontrava sentado e sentou-se sobre ele que sentiu-se deslizando para dentro da voluptuosa, quente e macia mulher...

Capítulo IV

O Andarilho

_ Quanto vosmicê qué pur essa garrucha?
_ Nóis troca pur uns cinco saco de feijão de corda, num posso fazê menos qui isso.
_ Ta bem, de noite vosmicê vem pegá os saco de feijão lá no pé da serra do buquerão e vosmicê me traz a garrucha, mais só vai vosmicê. Lembre qui padinho Avilino num pode sabê de nada.
_ Rapais, vosmicê vai pur um caminho qui num tem volta. Ta quereno mermo entrá pra vida do cangaço, né? Já arrumou seu bando? Seus cabra?
_ Não, quero lutá sozinho, vô dá fim a tudo quanto é puliça e otoridade, num vô dexá um só vivo. Esses cabra vão sabê que tem homi de verdade im Bom Conseio.
_ Mais e o veio Avilino é seu padinho? O veio Maquêgo num era potrestante?
_ Era, mais adispois qui mataro minha famía, o véio Avilino me pegô pra criá e me batizô de novo na ingreja católica. Pra mim é tudo a merma coisa, ah... ficô comigo um monte de livro qui papai tinha, ele trovi os livro dos istados unido. Tá tudo iscrito em ingrês. Eu intindia tudo o qui ele falava cumigo, nóis falava cum ele em purtuguês e ele cum nóis em ingrês.
Eu tenho a Blíbia, umas incicoplédia...
_ Eu num sei o qui é isso não, num quero nem sabê, meu pratão dixi qui essa garrucha ia sê boa pra vosmicê, ele tinha uma amizade braba cum seu pai.
_ Eu sei, desde piqueno qui eu uvia papai falá nele.
Assim Zé ( como era conhecido agora José) entrou para a vida do cangaço. Ele se aproveitava dos produtos que ele junto com o velho Avelino produziam na roça pra trocar por munição.
Apesar do velho Avelino desconfiar das saídas de Zé, que ia montado num burro que ganhara de presente do velho, não havia prova das estripulias do garoto, pois Zé agia sozinho.
Zé assaltava alguns tropeiros que se perdiam da tropa, ele agia nas estradas do Massacará, nas redondezas da Vila dos Buracos, ou então ele ia em direção de Jeremoabo, na estrada real do Bom Conselho.
Num desses assaltos, por volta do ano de 1881, Zé topou na estrada com um grupo de peregrinos. Zé ia em direção de um pequeno vilarejo chamado Duas Serras, na estrada real rumo ao norte.
Havia cerca de uns cento e cinquenta romeiros, logo à frente, liderava-os um homem com aparência de uns cinquenta e cinco anos de idade, mais ou menos. O homem que ia adiante, vestia uma espécie de batina azul, carregava consigo um bastão semelhante aos dos profetas hebreus, tinha cabelos compridos e uma longa barba.
O garoto ficou um pouco espantado com o que via, porém quis passar despercebido quando o líder disse:
_ "Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo!"
_ "Para sempre seja louvado tão bom Senhor!"
_ Vejo que o irmão carrega muita munição, não quer se juntar a nós para fazermos a obra do Nosso Senhor Jesus Cristo?
_Não, num sô lá coisa qui preste pra tá rezano pur aí.
_ É Deus quem nos aperfeiçoa.
_ Não, vô continuá adonde tô, mais si pricisá di ajuda, é só me avisá.
_ Irmão, vou rezar por você junto a Deus nosso Pai.
Essa foi a única conversa que Zé travou com o Beato que andava pelas redondezas construindo igrejas, consertando cemitérios e rezando novenas de casa em casa.

Capítulo V

Guerra nas Caatingas

O ano de 1897 foi agitadíssimo em Bom Conselho, pelos caminhos que a cortavam, via-se pessoas dos mais longínquos vilarejos passando por suas terras.
Muitas delas do arraial do Bom Jesus, de Alagoinhas, Feira de Santana, Simão Dias e outras vilas que viam numa lenta procissão, trazendo consigo bois e vacas, bodes e cabras, galinhas, feijão, milho, farinha de mandioca, armas e munição. Eles se dirigiam ao arraial do Belo Monte, com o intuito de abastecê-lo.
Zé, aproveitando-se do rebuliço e da ausência dos praças que se dirigiam ao lugar da peleja, planejou algo novo, a população se amontoava nas vendas à espera de novidades sobre o que acontecia no Belo Monte.
No dia 1º de março do ano corrente, o major Augusto estava só em casa, seus cabras tinham ido a uma venda próxima para saber de notícias da guerra sertaneja. Zé estava de tocaia, aproveitou e entrou na casa que estava silenciosa.
Toda a família do Major tinha fujido para a capital da Bahia, temendo uma nova invasão dos jagunços do Belo Monte, como a que acontecera no mês de Dezembro de 1895.
Zé entrou e disse:
_ Bom dia difunto!!
O Major que estava de costas virou-se todo trêmulo e disse:
_ Calma rapaz, é dinheiro que vosmicê qué?
sei qui vosmicê tá na vida do cangaço
_ Num quero dinhêro não, isso num me falta.
O qui quero é vingança, vô li mostrá qui otoridade nesse mundo só tem é Deus, vosmicê vai cumê terra agora.
Zé, com um tiro na testa do major, consumou sua vingança. Ele fugiu para a vila dos Buracos, que em sua grande maioria era simpatizante da causa do Belo Monte, pois o braço direito do Beato cearense nascera em Tucano, mas fora criado nos Buracos.

Capítulo VI

Obsecado por Livros

Após a fuga de Zé para a Vila dos Buracos, ele se embrenhou em meio aos chapadões que cercam o povoado, construiu para si uma choupana, estocou seus livros que herdara de seu pai, o velho Joseph, dentro do seu novo lar.
Zé começou a plantar milho, feijão e mandioca, começou também a criar bodes para seu sustento diário e à noite, à luz do candieiro mergulhava num mundo fantástico de romances, contos, poemas, enciclopédias, Bíblia, etc. Sempre regado à aguardente de cana, porém moderadamente, pois Zé temia o ataque dos capangas do major Augusto.
Zé frequentava um bordéu nas redondezas da vila de Tucano, pois nos Buracos, Massacará e região, muitos dos jagunços de Antônio Conselheiro que tinham fugido do massacre dos Canudos, tinham se refugiado nesses lugares e eles não premitiam a existência de bordéis. Muitos dos conselheiristas ainda esperavam a volta do beato cearense junto de Jesus Cristo em sua segunda vinda.
Zé a cada dia se intelectualizava mais e mais. Ele cursara o primário com uma professora particular lá em Bom Conselho quando seu pai ainda vivia, também lia e falava inglês que aprendera com o seu velho.
Zé deixou seus cabelos crescerem, e também a barba, e sempre impunhava seu violão pelas vizinhanças do sertão, abandonara a vida do cangaço e observava a apreensão da população rural que temia o fim do mundo no ano de 1900.
Zé, porém não acreditava num fim iminente, mas começava a ter respeito pela fé cristã que seu pai e seu padrinho o velho Avelino professavam.
Todos os dias de feira, na vila dos Buracos, Zé via e ouvia o medo da população local quanto a uma invasão da polícia baiana em seu povoado, pois muitos cabras de Antônio Conselheiro tinham se entocado lá.
Ao som do Baião, Desafio, Aboiado e Hillbilly, Zé entretia os sertanejos e aumentava sua estima entre a população rural local.

Capítulo VII

Mudando para a Capital

_ Bom dia!
_ Bom dia!
_ Por quanto o senhor aluga esse quarto em sua hospedaria?
_ Quantos dias o senhor deseja ficar aqui na capital ?
Percebo que o senhor é do sertão!
_ É, sou de Bom Conselho, estou vindo morar uns tempos na capital pra ver se esqueço a violência de lá do sertão.
_ Está bem, são cinco contos de réis por mês, você tem como pagar esse valor?
_ Creio que sim. Quero ver se de uma vez por todas eu ajeito minha vida!
_ Você tinha algum envolvimento com os jagunços de Antônio Conselheiro?
_ Não, eu já me deparei com ele na estrada de Duas Serras quando ele ainda andava pras bandas daqui de Bom Jesus, mas depois que ele se mudou pros Canudos não.
_ É bom saber, pois não quero valentões nem monomaníacos aqui na minha hospedaria de jeito nenhum.
Assim, José muda-se pra capital da Bahia e passa a negociar com bebidas vindas do sertão, vendendo-as em feiras livres da cidade.

Capítulo VIII

Casado

É o ano de 1904, José se casa com Maria Joaquina, filha de um vendedor de tecidos da capital.
José começa a ter bons lucros com as vendas em sua barraca no Pelourinho, com esse aumento nas vendas a burguesia da cidade começa aos poucos a ter uma certa consideração pelo rapaz.
Agora José usa casaca, uma pequena cartola, e usa um bastão como a maioria burguesa da cidade.
Nos armazéns, quando José vai fazer compras, ele sempre para um pouco para discutir política, como por exemplo o presidente da recém república investindo pesado no apoio aos cafeicultores do interior paulista, não há muito investimento nos estados do norte do país, etc.
Nesse meio tempo, a situação em Juazeiro do Norte e na região de Santa Catarina começa a chamar a atenção dos jornais do país. Sempre com o tom de ataque como aconteceu com o acontecimento de Canudos, as autoridades e sociedade burguesa começa através da imprensa a empurrar toda a população brasileira contra os movimentos populares dos interiores do Ceará e de Santa Catarina.
José sempre defendendo as causas populares em suas prosas com os comerciantes que frequentavam os armazéns próximos de onde ele trabalhava. Assim corriam os anos da primeira década do século XX.

Capítulo IX

Areópago de Discussões Teológicas


_Pois é, eu vinha do armazém quando me deparei com os mesmos religiosos discutindo a Bíblia. O padre sempre dizia que a Bíblia está longe de ser a completa revelação de Deus, pois havia certas aparentes contradições. Ele sempre enfatizava a passagem do livro de S. Mateus onde o apóstolo diz que o profeta Jeremias havia revelado o preço das trinta moedas de prata, as quais Judas recebeu para entregar Jesus Cristo às autoridades romanas. Segundo o padre, somente um texto apócrifo atribuído ao profeta Jeremias é que continha essa afirmação e que nos livros canônicos essa profecia se encontrava em Zacarias.
_ Intonse qué dizê que o potrestante ficô sem resposta pra essa prosa do pade?
_ De jeito nenhum, o pastor começou logo a esticar o texto bíblico dizendo que no original o termo ‘dito’ de: “Cumpriu-se, então, o que foi dito pelo profeta Jeremias: Tomaram as trinta moedas de prata, preço do que foi avaliado, a quem certos filhos de Israel avaliaram,e deram-nas pelo campo do oleiro, assim como me ordenou o Senhor” é uma tradução de um verbo grego da versão dos setenta que pode ser traduzido como algo escrito ou oral, então os discípulos conheciam na época as profecias não registradas em livros dos profetas do antigo testamento, por isso S. Mateus atribui essa profecia a Jeremias.
Não me segurei e perguntei ao padre porque a Igreja Católica considerava os concílios ecumênicos como inspirados se em alguns deles foram decididas guerras e massacres contra minorias.
_ E o qui foi qui o pade disse?
_ Disse que minha mente era limitada demais para entender a obra de Deus, ele falou que eu não podia me utilizar do meu sistema de lógica para contestar as obras de Deus, disse que o homem carnal não compreende as coisas espirituais.
Perguntei então por que S. Paulo diz que o homem seria justificado diante de Deus somente por sua fé independente de suas obras e que S. Tiago diz que a fé sem obras é morta?
O padre disse que a correta interpretação da Bíblia só podia ser feita pelo papa e pelo colégio de cardeais que são os príncipes da igreja, sendo a interpretação bíblica feita por leigos errada. Continuei perguntando por que Joana D’Arc tinha sido morta como bruxa e depois a igreja voltou atrás e a canonizou como santa?
Aí o padre agiu conforme o pastor, começou a esticar textos bíblicos e a usar dogmatismos para fugir a essa minha última pergunta.
_ Vosmicê num acredita em Deus, não?
_ Acredito, só penso que a maior forma de se aproximar de Deus é sendo caridoso, depois é que vem os ensinamentos cristãos. A grande maioria dos líderes cristãos invertem essa ordem ou simplesmente anulam a caridade.

Capítulo X

Fornecedor de Mantimentos

_ Então, amigo, lá pela apertura da guerra contra o Padre Cícero, eu e mais uns dez tropeiros saímos daqui carregados com munição e farinha, fomos tentar abastecer o Juazeiro lá do Ceará. Nós seguimos até Serrinha passando por Feira de Santana, trocamos nossas mulas lá em Serrinha e entramos pela estrada do Raso até chegar no Tucano, lá no Tucano trocamos as mulas de novo, seguimos pela estrada do Cumbe sempre evitando a praia, pois sabíamos que passando pela região dos Canudos não seríamos importunados por autoridade nenhuma, encontramos algumas casinhas reerguidas no lugar do antigo arraial dos Canudos, tinha um certo velho Firmino que tinha fugido pro Bom Conselho na época da grande guerra e tinha voltado pros Canudos, ele me disse que ele foi um dos primeiros a voltar pra lá, nós dormimos lá para dar descanso aos bichos e descansarmos.
O velho me contou que depois da destruição do arraial, muitos ficaram morando nas roças vizinhas, as mulheres e crianças foram trazidas de trem para a Bahia, outras foram levadas para o Rio de Janeiro. Poucos estão voltando, a maioria dos que moram lá acreditam ainda na ressurreição do Conselheiro.

_ É mermo?

_ Nós seguimos direto para o Chorrochó e cruzamos o Pernambuco, muita gente a pé indo para o Juazeiro para defender o Padre Cícero, dizem que alguns que brigaram nos Canudos que haviam fugido de lá antes da grande guerra foram ajudar o Padre Cícero.

_ Vosmicê entraro no arraial?

_ Não, chegamos perto até dá pra ver as primeiras casas, mas decidimos entregar as mercadorias e voltarmos, perto da nossa viagem de volta, alguns beatos de confiança do Padre Cícero nos saudaram e agradeceram nossa ajuda, depois voltamos pelo mesmo lugar.
Na volta perto do Raso trocamos tiro com uns assaltantes, eles balearam um dos nossos tropeiros no tornozelo e depois nós botamos eles pra correr, matamos um dos bandidos e enterramos ele no lugar, colocamos uma cruz de candeia lá. Depois tiramos a bala do tornozelo de Mané e pisamos mastruz e colocamos no lugar com um pano, e não é que ele ficou bom mesmo?

_ Rapais e essa prosa bunita qui vosmicê tem agora e o que foi isso?

_ Depois que eu fui morar nos Buracos eu comecei a ler muito, os livros que eram de papai eu levei comigo, estão todos aqui agora. Me apaixonei pela leitura.

_ Eu num posso dizê isso não, num tenho leitchura não, num fui pra iscola não, nois era pobre conde nois era piqueno, agora num quero meia cum isso mais não!

_ Seria bom você aprender a ler e escrever, pois assim você não pode ser enganado facilmente nas compras de terras, já pensou se alguém te trapasseia na hora de fazer o documento de suas terras?

CAPÍTULO XI

O Beato José

No início dos anos 30, às margens do rio Itapicuru, na altura do município de Tucano, floresce uma pequena povoação liderada pelo Beato José, com suas influências tanto anglicanas quanto católicas, agora, um homem de meia idade, muito devoto e seguidor de Jesus Cristo, José consegue fazer muitos prosélitos pela região.
José se desfez dos seus bens, comprou 400 tarefas de terra na margem direita do Itapicuru, e como ele mesmo lecionava tanto a adultos como a crianças com o intuito dos mesmos serem capazes de ler e interpretar as Sagradas Escrituras, o lugar foi passando a ser um núcleo de intelectuais nas redondezas. O povo do lugarejo nomeou José como presbítero da localidade, o mesmo andava de terno, uma Bíblia, um bastão semelhante aos dos profetas hebreus, sempre visitando um por um dos que habitavam o povoado.
José se mudara com toda a sua família para a localidade, com sua oratória, ele conseguira convencer um médico a habitar o lugarejo bem como pessoas das mais variadas profissões, assim as vilas vizinhas passaram a recorrer aos serviços prestados pelos moradores de Nova Petra, esse era o nome do mais novo arraial do sertão baiano.
A base da doutrina pregada por José era a do amor ao próximo, sempre enfatizando que de nada adiantaria a uma pessoa ter fé e não praticar a caridade, as idéias desse beato era de tolerância para com os de diferentes correntes teológicas, pois mesmo sendo católicos, alguns dos moradores de Nova Petra eram bem vindos, ainda que não comungassem das mesmas crenças da da grande maioria dos habitantes do Povoado.
Durante as reuniões de oração promovidas por José, havia uma refeição comum entre os adeptos do grupo religioso, esse jantar geralmente acontecia no cair da tarde de cada domingo, era servido aos participantes coscuz com leite e um copo de café. Eles denominavam essa refeição comum de Ágape, como faziam os cristãos primitivos. Sempre nos finais de cada reunião, havia a coleta de doações feitas pelos fiéis com o intuito de ajuda aos pobres e construção de casas para os que não possuiam moradia.
Não havia grandes latifundiários no lugar, José havia tomado metade de seu patrimônio, isto é, umas 200 tarefas de terra e as dividiu entre as 8 famílias mais pobres do povoado, assim, cada família ficou com 25 tarefas.
O comércio do lugar começou a prosperar, raramente acontecia um crime no arraial, pois a distribuição de renda era bem mais justa do que nas vilas circunvizinhas. Desse modo, Nova Petra começou a chamar a atenção das autoridades para si.
Porém não houve intervenção armada por parte do governo.






Obra ainda sendo produzida por Edson dos Santos.

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Ensaios & Opiniões

Minha Fé

“Deus”

Minha fé é baseada por evidências compreendidas pelo raciocínio humano quanto à existência de uma “Força” criadora, mantenedora e providencial da realidade. Esta “Força” não possui a inteligência como estamos acostumados a atribuir o conceito aos humanos, na verdade a inteligência humana é uma emanação desse complexo sistema que nos concede habilidades de reflexão não só sobre a natureza, mas também sobre nós mesmos.
Para chegar a essa conclusão, me utilizei da própria máxima da ciência “nada vem do nada”, este axioma foi o fundamento das afirmações dos primeiros cientistas, então seguindo a lógica humana para entendermos e testarmos a realidade que nos cerca, é bem mais lógico crer numa “Inteligência Superior” do que acreditar que o raciocínio humano veio do nada.
Segundo as hipóteses mais aceitas do surgimento da inteligência humana, o homem veio a adquirir o raciocínio quando ele deixou de andar de quatro patas e firmou-se nas suas duas traseiras, assim suas mãos ficaram livres e ele passou, aos poucos, a utilizar pedras e ferramentas rústicas para conseguir seu alimento diário, isso foi modificando seu cérebro e transformando-o num órgão superior aos dos animais que continuaram a andar de quatro patas.
Bem, se a inteligência surgiu no homem, isso quer dizer que, sendo o homem parte da natureza e não algo fora dela, então por que duvidar que pode haver uma inteligência muito acima da do homem ?
Ao observarmos a natureza, podemos perceber que há uma tendência de não somente os animais terem sentimentos, mas também as plantas, isso nos leva a termos a concepção de que pode realmente haver uma "Suprema Inteligência" ! (Sl 19; Rm 1.19,20)

Contos do Bom Conselho

"Abirosbaldo e sua motocicleta envenenada"

Na minha cidade que é chamada de Cícero Dantas no estado Bahia (o antigo nome era Bom Conselho) tem um cabra chamado Abirosbaldo , ele trabalha numa oficina de chaparia e pintura e tem um defeito de nascença, o rosto torto parecendo que está tendo algum troço.
Certo dia ele e um amigo foram "cumê água" num povoado da cidade chamado Serra Grande que fica há uns 9 km mais ou menos da sede do município.
Na volta estava caindo uma garôa e já era noitinha, eles estavam bêbados e vinham de moto numa ladeira que é famosa nessa região por ter havido vários acidentes.
Como o chão é de cascalho, a moto derrapa com os dois e os mesmos caem e desmaiam.
Uma Picape que vinha atrás pega os dois e joga na caçamba no fundo e "pica a mula" pro Hospital Regional de Cícero Dantas, isso aconteceu num domingo.
Ao chegarem no hospital, ligaram pro médico que supostamente estaria de plantão, mas estava em casa e o mesmo vem às pressas.
Ao entrar no hospital o médico dá de cara com o que ia pilotando a moto, ele já estava melhor, quando o médico entrou num dos quartos, viu aquela cena... Abirosbaldo deitado numa maca com o rosto todo torto e a baba caindo (a baba o médico não sabia, mas era vômito por causa da cana) ligou para um hospital em Aracajú:
_ Rapaz, é urgente, tem um cabra aqui em Cícero Dantas passando mal, ele teve um acidente de moto, o cara tá pra morrer, acho que ele está em coma, o rosto já tá todo troncho e tá com a boca espumando, prepare um cirurgião neurologista, não é pra agora não, é pra ontem, tô mandando uma ambulância praí agora mesmo.
Aí o médico ligou pra um motorista vir de ambulância pegar o tal do Abirosbaldo que já tava nas últimas.
Quando o motorista entrou no hospital junto com um enfermeiro e viu quem estava deitado na maca, disse:
_ Ôxe doutor, esse cabra é Abirosbaldo, ele não tá passando mal não, ele já nasceu assim mesmo, isso aí é cachaça demais que ele tomou.

“A Cabeça Voadora”

No ano de 1998 eu e mais três amigos fomos contratados pela prefeitura da minha cidade para lecionarmos em um distrito da mesma.
O lugarejo dista uns 29 km da sede do município, situado entre os municípios de Cícero Dantas e Euclides da Cunha.
Nesse povoado que se chama “São João da Fortaleza” é comum o povo ainda acreditar em lobisomem, mula-sem-cabeça, etc.
Eu ensinava inglês e geografia para turmas de 5ª a 8ª séries (atuais 6º e 9º anos), Antônio Carlos (conhecido como “Totonho”) ensinava matemática, Valdiney ensinava Português e Cosme, História. Nossas aulas eram nos períodos vespertino e noturno.
Um certo dia de terdezinha, contávamos histórias de terror enquanto jantávamos para depois irmos ao colégio, estava próxima a semana santa e no sertão a semana santa é vista com muito temor e misticismo pelo povo dos lugarejos.
Saímos todos juntos à escola, Cosme era quem ficava com as chaves da casa. Ao chegarmos no colégio, o ônibus da escola ainda não havia chegado e já era 19:00 em ponto.
Eu tinha esquecido umas provas corrigidas lá na nossa casa e pedi as chaves a Cosme para ir buscá-las. A casa era alugada pela prefeitura e se localizava já na saída do lugarejo, quase “nos mato”. Eu ia pelo caminho escuro, já não havia mais os postes de luz do povoado, aí me bateu um medo ao me lembrar as histórias de terror.
Quando eu ia me aproximando da casa, eu olhei para a parede do lado da casa que era branca e vi uma cabeça flutuando sem o resto do corpo e tinha uma luzinha que ficava girando bem na frente do rosto da tal cabeça. Eu parei um tempão e fiquei olhando para aquela imagem aterradora...
Comecei a ficar trêmulo, meu estômago ficou “gelado” e a cabeça começou a se aproximar de mim e eu “lasquei a carreira” no meio “dos mato”.
Enquanto eu corria, ouvia uma voz esquisita atrás de mim, e eu:
_“uai”
_socorro
_“me acuda”
_tem um bicho atrás de mim!!
Quando cheguei de volta à escola contei tudo aos outros professores e aos alunos que já haviam chegado. Aí todo mundo começou a rir. Enquanto todo mundo ria de mim, chegou Valdiney cansado :
“_ Rapais, que carreira é essa? Eu tava esperano você abrir a porta lá na casa quando você parou na estrada e ficou me olhano um tempão, aí eu fui até você pra pegar a chave. Quando eu fui chegando perto de você, você saiu igualzinho a um doido correndo no meio dos mato e gritando por ajuda e eu correndo atrás de você pedindo a chave pra eu entrar pra eu pegar meus livros que eu tinha esquecido e você num parou de jeito nenhum.”
Conclusão, Valdiney tinha ido à nossa casa logo depois que eu saí da escola, só que ele tinha cortado caminho por uma trilha mais curta, e a cabeça flutuando era que ele estava vestido com a farda escolar do professor que era de cor branca, como a cor da parede era branca também a camisa dele ficou invisível e a luzinha flutuando na frente da cabeça dele era o cigarro que ele estava fumando.

Raimundo, e suas perguntas brilhantes!!

Em 1997 um assalto ao banco do Brasil em Cícero Dantas parou e comoveu toda a cidade. Pedro e mais alguns de seus comparsas invadiram a cidade e assaltaram o banco citado e mataram cerca de quatro policiais militares que eram conhecidos por todos.
A morte dos PMs chocou toda a população, pois em cidades pequenas todos se conhecem.
Logo que os bandidos tinham acabado de fugir com o dinheiro e a população começou a sair às ruas para saber melhor o que tinha acontecido muitos ficaram tristes por causa das mortes.
Meu tio, irmão da minha mãe, chamado Pereira estava profundamente triste pelas mortes ocorridas, pois ele conhecia todos os policiais que tinham morrido, e esse meu tio é um pouco estressado, igualzinho ao seu Lunga.
Meu tio reabriu a lanchonete logo depois da fuga dos bandidos e todos os vizinhos foram para a frente dela comentar sobre a tragédia, aí aparece Raimundo querendo puxar conversa com meu tio e pergunta a ele:
_ Rapais, que negóço foi esse??!!
e venha aqui... Os bandidos fugiram de carro foi ?
Meu tio furioso com a pergunta brilhante respondeu a Raimundo:
_ Não, fí do cabrunco, os ladrão desceram aqui a pé numa carrera da peste, cada um com um saco de dinhêro na mão, eles na frente correndo e o resto dos policial também na canela correndo atrás dos bandido e atirano!

Tibúncio, o Matador de Velhinhas!

Tibúncio é um cabra que atulmente tem uns 50 anos de idade, ele trabalha na mesma oficina que Abirosbaldo do primeiro conto.
Há uns 10 anos atrás, Tibúncio tinha ido a um micareta na cidade de Antas-Ba, a uns 25 km de Cícero Dantas. Ele estava numa praça vendo o trio passar, quando toda a multidão saiu da praça acompanhando o trio, só sobraram Tibúncio e uma velhinha que estava sentada num dos bancos da praça, de costas para ele, bem no meio do jardim.
Qual a idéia brilhante que passou pela cabeça daquele homem de 40 anos mais ou menos naquela época? Hein? Hein?
_Vou pular por cima da véia que tá ali sentada naquele banco de jardim...
Tibúncio fez carreira, e foi... foi... foi se aproximando da doce anciã... e quando ele deu o último passo com força para ganhar impulso para o pulo... a velhinha ouviu o estampido do pé dele no chão para o pulo final... a velhinha se levantou assustada sem saber o que era e... tibummmmmmm.
Tibúncio e a Velhinha, os dois, caídos no meio da praça.
Aí a velhinha começou a gritar:
_ Socorro, um tarado, me acuda, polícia!!
E Tibúncio, o que fez? Hein?
Se mandou pra debaixo do trio e ficou lá escondido até a polícia se cansar de procurar por ele.

"Você que é homem, eu sou um cabra safado!!"

Até certo tempo atrás, lá na minha cidade, se alguém perguntasse a qualquer um se era homem, diziam logo:
_ Eu mermo não, eu sou um cabra safado.
Tudo isso por causa dum acontecimento singular.
Lá no povoado do primeiro conto, tinha um véio que "jurava de pé junto" que não existia gay.
_ Ôxe, esse negóço de viado num inseste não.
Um dia uma galera da minha cidade, um grupo de cabra bom levaram um gay antigo da cidade, um dos primeiros a assumir sua homossexualidade, pra ver se o véio da Serra Grande passava a acreditar que gays existem mesmo.
Um certo dia (final de semana) a galera foi cumê água lá na Serra Grande e levaram Sr. Lifo Dias, quando apresentaram Lifo Dias ao véio e o véio estendeu a mão pra cumprimentar o tal do cabra macho, Lifo Dias foi logo agarrando no negóço do véio.
Aí, o véio puxou o facão da bainha e sai Lifo Dias no meio dos mato, numa plantação de milho abrindo caminho no milharal numa carrera da peste e o véio atrás com o facão pra matar o cabra.
A galera toda correu atrás do véio pra impedir que o véio fizesse uma desgraça.
Lá na frente, numa colina a galera encontrou o véio ofegando cansado com as mãos no joelho, aí o pessoal perguntou:
_ Cadê Sr. Lifo Dias?
_ sei lá da peste, num consigui pegá aquele disgraça não, ele iscapuliu. Discubri hoje qui eu num sô homi não. Eu sô é um cabra safado.
Aí agalera fez:
_ Iiiiiiiiiiiiiiiiihhhhhhhhhhh, o véio virou viado depois que Lifo Dias pegou no negóço dele!!
Aí o véio respondeu:
_ Num é nada disso não seus cabrunco, é qui eu crisci cum meu pai dizeno:
_ Homi que é homi fais quarqué coisa.
Aí o véio concluiu:
_ Eu mermo num tenho corage de botá ôto homi em minhas costa não, antonse num sô homi não, sou um cabra safado. O "demônio" do Monte Kalein Certa vez estávamos orando na igreja umas 11:30 da noite, quase meia noite, Lucíolo era metido a profeta e disse que Deus tinha revelado a ele que um demônio morava na serra detrás da igreja, eu era um adolescente de 16 anos na época, fiquei inculcado com a estória de Lucíolo, na hora da oração, todo mundo de olhos fechados, e minha mente viajando igual aquele desenho "O Mundo Maravilhoso de Bob", aí enquanto agente orava, vinha imagens na minha mente que o demônio tava descendo a serra pra invadir a igreja, e tava chegando perto, perto, perto... de repente na minha imaginação o demônio deu um chute na porta e abriu e vinha na minha direção, aí eu fiquei pensando " o diabo vai tocar em mim, o diabo vai tocar em mim", aí alguem tocou no meu ombro, aí eu gritei: "Sai Satanás, volte pro inferno de onde você veio", e todo mundo, inclusive o que tinha tocado no meu ombro clamava a Deus pra expulsar o demônio, depois que agente se acalmou, Nicanor me perguntou: "O que o demônio fez com você Edinho ?", eu disse: "o demônio tocou no meu ombro", Nicanor disse: " e é doido rapaz !! fui eu quem tocou no seu ombro pra perguntar se amanhã de manhã você vai bater o baba lá no BNB", kkkkkkkkkkk

Poemas

Coração Oblíquo

Contemplo todos os arredores,
estou sobre uma alta montanha,
este meu coração oblíquo
me transforma nesta pessoa estranha.
Não me encaixo na correnteza,
sou como um sonho,
na solidão consigo me encontrar.
Longe de todos,
estou à margem
um forte vento sopra no meu rosto,
minhas emoções interagem.
Sou como um guerreiro forjado na batalha,
eu luto contra o mundo,
não encontro um lugar para mim,
sou como uma nave que imerge lá para o fundo.
Os meus olhos veem a aurora,
o sangue pulsa em minhas veias,
na batalha conquisto a vitória,
uma chuva torrencial me acalma
e me lava da escória.

poema de Edson




Alter Ego

Que força é essa
que me impele às portas da insanidade?
Que poder é esse
que tenta me ludibriar
e me seduz à tola idéia
de que posso ser imortal?
Me afogo num grande lamaçal,
se me calo
me sinto o mais mísero homem
sobre a terra.
Quero...Não... não quero, devo,devo exteriorizar
o que o outro eu me obriga a escrever.
Ninguém jamais viu minha outra face,
a minha face oculta
como o lado oculto da lua.
Todos os que se arriscaram a ir até lá,
jamais voltaram,
até o meu eu conhecido treme
ao ouvir falar do meu eu oculto.
Dizem que o meu outro ser não tem forma
ou que é um monstro desalmado,
só sei que sem ele o meu ser dócil
jamais saberia que é dócil,
talvez nem saiba que há realmente
um ser venenoso dentro deste meu coração oblíquo.
Quer saber quem é o meu eu taciturno e degradado
contra o qual luto diariamente
para que ele não tome conta da minha lucidez?
Pois vou revelá-lo:
é o meu ser poético.

poema de Edson



Obscuro

Não Mithos ao leitor,
Logos que a palavra me vem à mente,
liberto-a como a contradição
que me pressiona a favor do contra-senso.
Sou obscuro,
tão obscuro que chego a ofuscar
os que olham para mim,
é como se eu inspirasse
o amor ou a morte nos outros.
Fazendo isso,
eu os levo a um estado em que
todos se sentem como se estivessem
livres das pressões dos homens,
mantenho-os como na sua tenra infância,
faço-os mergulhar na sua própria obscuridade.
Sou o ópio da humanidade,
sou eu quem coloca o homem
no limiar da fantasia,
os encorajo a dizer sim,
ponho-os num mundo
no qual não mais querem voltar.
Minhas origens remontam o período
em queos primeiros homens se utilizaram de mim
para poder exprimir o que sentiam.
Meu poder de atração excede
o mais forte dos ímãs,
trato a todos como a irmãos
e mesmo assim minha solidão é imensurável.
Sou grotesco,
destruo tudo o que pode gerar a monotonia do belo,
inclusive a mim mesmo.

poema de Edson



O Mar da Tranquilidade

Sou um pobre no meio da turba,
tento expor minha biografia,
minha biologia é ultrapassada,
os meus olhos são dois livros abertos,
todos aqueles que os fitam
Por um momento se sentem
perdidos entrelinhas,
pois quem lê minhas pálpebras,
bebe da dislexia da minha alma.
Me vejo agora sobre uma falésia,
mirando o mar da tranqüilidade,
onde os falidos procuram ajuda;
Biodiesel, biosfera, please, pay my bill!
Sou um nômade no amor,
sou uma pedra que não criou limo,
pois as águas me impelem para lugares distantes.
Não quero morrer sozinho,
mesmo sabendo que vim ao mundo sozinho,
tão sozinho como uma gota no oceano

poema de Edson




Oprimo os opressores

O sarcasmo é o meu álibi
meu doce veneno expelido
O inverno está lá fora
me saudando com uma gélida briza
As árvores mortas e suas
folhas secas caídas pelo chão
abrem caminho à uma tarde
melancólica com gotas finas e frias
que caem do céu
Ah! oprimo os opressores
não lhes mostro misericórdia
tenho-os em minhas mãos
eles tremem ao meu ver
vou fazê-los engolir todo
o seu vômito, tudo aquilo
que eles fizeram para com os pobres
Eles serão apanhados em
suas próprias ações
Farei com que eles sejam
sepultados no fulgor da glória
suas vidas serão interrompidas
no auge das suas conquistas
Servirão de exemplo aos
que ousarem oprimir
os pobres de espírito.

poema de Edson